Paganismo moderno por Alessandro Viana Vieira de Paula

Na Revista Espírita de outubro de 1861, encontramos uma mensagem do espírito Erasto, que foi dirigida aos espíritas de Lyon, na França, advertindo-os sobre o perigo do paganismo. Diz ele: Hoje, caros discípulos, aquele que foi sagrado por São Paulo vem dizer-vos que vossa missão é sempre a mesma, porque o “paganismo romano”, sempre de pé, sempre vivaz, ainda enlaça o mundo, como a hera enlaça o carvalho…

A palavra paganismo é utilizada para expressar as religiões politeístas, que acreditam em vários deuses. Amplamente difundido nas culturas antigas, tais como na Grécia, em Roma e no Egito, foi combatido pelo judaísmo e pelo cristianismo, que ensinam a crença em um Deus único.

Conforme consta da Revista Espírita de setembro de 1861, a religião israelita foi a primeira que emitiu aos olhos dos homens a ideia de um “Deus espiritual”. Até então os homens adoravam: uns, o sol, outros, a lua; aqui, o fogo, ali, os animais. Mas a ideia de Deus não era representada em parte alguma em sua essência espiritual e imaterial. (mensagem do Espírito Edouard Pereyre).

A admoestação de Erasto é significativa porque, na atualidade, constatamos o paganismo produzindo danos ao progresso da criatura humana, mas sob uma outra perspectiva, haja vista que muitos indivíduos equivocados, por desconhecerem o sentido moral e espiritual da vida, convertem-na numa busca incansável de coisa alguma, satisfazendo a ânsia de prazeres e gozos imediatos.

São os deus-corpo, deus-sexo, deus-poder e deus-dinheiro, que tanto atormentam e inquietam os homens, desviando-os de suas metas existenciais, e que se sustentam em razão do predomínio do orgulho e egoísmo.

No livro Entre os dois mundos, ditado pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda, através da mediunidade de Divaldo Pereira Franco, o benfeitor Policarpo assevera que: O sexo desvairado é o novo deus, o Moloc ressuscitado, que arrebata e consome ao som estridente das músicas primitivas e dos embalos furiosos, (…) Corpos bem delineados sob os impositivos da herança genética ou trabalhados por ginásticas severas, dietas rigorosas, anabolizantes e implementos artificiais em favor da estética, tornaram-se a nova religião, o seu culto, o altar da nova mentalidade, (…) Vive-se, desse modo, o período excruciante da existência, numa sofreguidão desmedida na busca das alegrias e gozos dos sentidos que terminam por exaurir as reservas de forças e as resistências do organismo. Um grande número desses aficionados do corpo e do prazer diz-se cristão, (…) sem responsabilidade nem respeito pela fé que dizem esposar. Seria de perguntar-se: Que foi feito de Jesus?[cap. 3]

Dessa forma, percebe-se que mesmo os cristãos estão cultuando esses novos deuses, sem darem-se conta dos débitos que estão amealhando perante as leis Divinas e das oportunidades abençoadas que estão desperdiçando.

Encontramos diversas criaturas humanas adorando o deus-corpo, em condutas narcisistas, na busca desenfreada de um corpo escultural, gastando horas e dias preciosos, sob a justificativa de busca de saúde.

É claro que os cuidados com o corpo fazem parte da  pauta reencarnatória, contudo, o exagero será sempre prejudicial, porque gerará a falta de tempo ou de interesse para os devidos cuidados da parte espiritual.

Quantos não alegam falta de tempo para os compromissos religiosos e caritativos, mas gastam horas em academias, caminhadas e em outros esportes. São incapazes de uma leitura saudável de quinze minutos por dia, mas desperdiçam incontáveis tempos em programas televisivos ou notícias escritas que alardeiam o culto ao corpo.

Anote-se que a questão nessa área é encontrar o devido equilíbrio, a fim de que possamos cuidar do corpo e do Espírito, conforme excelente lição que encontramos em O Evangelho segundo o Espiritismo, no capitulo XVII (Sede Perfeitos), onde o Espírito Georges enfatiza que: …se o Espiritismo não viesse em auxílio dos pesquisadores, para demonstrar-lhes as relações existentes entre o corpo e a alma, e dizer-lhes que, desde que são reciprocamente necessários, é indispensável cuidar de ambos.

Na questão do sexo, sabemos que poucos conseguiram sublimar o instinto sexual, e acabam se tornando escravos do prazer, sem que identifiquem o valor e a amplitude do amor.

Há uma exploração da mídia em torno do sexo porque dá IBOPE. Vemos inúmeras novelas, filmes e propagandas que apelam para a sensualidade.

Frise-se que o número de traições nas relações conjugais é elevado, e tem aumentado o número de pessoas de trinta a trinta e cinco anos de idade, que obtém a independência econômica, mas não querem formar família, desejando ter autonomia da sua vida, e buscam o sexo casual, programado apenas para o prazer, sem qualquer emotividade e responsabilidade.

Consigne-se, ainda, que há aqueles que mantêm uma postura comportamental irrepreensível, mas cujo mundo íntimo é atormentado na área da sexualidade, e muitos comprazem-se em alimentar fantasias e clichês mentais nessa área.

Tudo isso representa o predomínio da natureza animal sobre a espiritual, em que o imediatismo da criatura humana faz crer que tudo é válido em nome do prazer, em total desrespeito ao progresso espiritual e aos sentimentos elevados, gerando danos a serem ressarcidos em vidas futuras e, às vezes, até na atual existência corporal.

Cultua-se, também, na atualidade, o desejo de poder, de destaque social, de reconhecimento, algumas vezes imerecido, fazendo com que o ser humano aflija-se e desgaste-se nesse desiderato, sem que lhe sobre energia e disposição para as conquistas nobres e espirituais da vida.

O orgulho gera a falsa necessidade de sobrepor-se aos outros, de ser bajulado ou temido. Alguns são Espíritos que trazem inseguranças e conflitos de inferioridade no inconsciente, em virtude de insucessos de vidas passadas. Outros trazem esse desejo de dominação porque já tiveram o poder em outras existências físicas e ainda desejam mantê-lo.

A ambição do poder faz com que a atenção e o tempo do indivíduo sejam utilizados apenas para essa finalidade doentia, em prejuízo do próprio crescimento espiritual e da vida familiar. Não se acha tempo nem se tem interesse para as outras questões relevantes da vida.

O deus-dinheiro, da mesma forma, tem dificultado a espiritualização do ser humano, porque exige dedicação quase integral, imediatismo e prioridade em torno das questões materiais.

Há pessoas que se utilizam de todos os expedientes, honestos alguns, desonestos outros, no afã de enriquecerem, que lhes facultarão facilidades, entretenimentos variados, destaque social, ambições desmedidas etc.

Com o escopo de estimular o enriquecimento a todo custo, há livros que ensinam como conquistar o primeiro milhão de reais. O problema é que muitos indivíduos não se contentarão ao atingir essa meta e sempre se desgastarão para acumular cada vez mais.

Diante dessa conduta materialista, as questões espirituais e familiares acabam por sofrer um enorme prejuízo, porque a mente de muitos focará apenas o ter em prejuízo do ser.

Alguns fazem doações volumosas para determinados templos religiosos, achando que estão cumprindo com suas obrigações religiosas, todavia, a busca do aperfeiçoamento moral vai além, expressando-se na doação do próprio tempo em favor do próximo, dos feridentos da alma e dos que carecem de socorro material.

Muitos justificam o exagero na busca do enriquecimento dizendo que, quando estiverem ricos, diminuirão o ritmo e terão tempo para Deus, a caridade e a família. Entretanto, não se sabe o momento da morte, e muitos desencarnarão enquanto estão nessa estrada da perdição, regressando em situações deploráveis ao mundo espiritual.

Oportuno consignar que, em relação aos quatro deuses, há um planejamento obsessivo para insuflar essas fraquezas da criatura humana. Indico a leitura do livro Trilhas da Libertação, do citado médium Divaldo Pereira Franco, onde no capítulo Os Gênios das Trevas, informa-se que um grupo de obsessores atua baseado num programa que chamaram de as quatro legítimas verdades (zombeteira referência ao código de Buda em relação ao sofrimento: as quatro nobres verdades), que estimula na mente do indivíduo o sexo, o narcisismo, o poder e o dinheiro.

Por derradeiro, convém registrar que os quatro itens tratados neste artigo são neutros, isto é, dependerão do direcionamento ético-moral, exigindo do ser humano vigilância e oração, fidelidade ao Evangelho e disciplina nos compromissos espirituais, amor e respeito, para que a atual reencarnação possa converter-se em conquistas nobres da alma, produzindo bênçãos, plenitude e paz de consciência.


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Dez/2015