A infância esquecida por Noeval de Quadros

Como aguardar a melhoria do mundo, se tão poucos cuidados existem para com o coração infantil?

Como ter esperanças de tempos melhores para a Humanidade, a curto ou médio prazo,
perante essa indiferença gritante para com a alma infantil?

Como se pode condenar o adolescente de costumes antissociais quando se
tornou quase uma regra o abandono da criança a sua própria sorte?

Como pensar num tempo de equilíbrio para a sociedade e de paz para o mundo,
quando se negligencia tanto a formação dos pequenos?

Clélia Rocha[1]

Um dos problemas modernos com que se depara a sociedade é a crescente onda de agressões de filhos contra pais. No Brasil, o Ministério da Saúde anotou 14.302 casos de agressões de filhos contra pais, em três anos (2012 a 2014)[2].

Em outra ponta, são inúmeros os casos de violência de pais contra filhos, registrados pelos Conselhos Tutelares ou serviços como o SOS criança ou Disque-Denúncia. Chegam a 120.000 casos as violações a direitos de crianças e adolescentes, em média, por ano, no Brasil[3] e boa parte desses abusos ocorre em ambiente familiar. Assim, muitos são vítimas, antes de serem vitimizadores.

A violência nem sempre é física, como maus-tratos ou exploração do trabalho infantil, mas psicológica ou moral, fruto de negligência e abandono. Especialistas atribuem a banalização da violência à disseminação das drogas e de um sistema educativo permissivo.

O fato é que a grande dimensão do problema chama a atenção das autoridades para as causas da violência familiar e doméstica, que acontece na intimidade do lar e, por isso, tem menos visibilidade.

Além disso, os professores vivem com medo da agressividade dos alunos, que reproduzem o modelo de violência vivenciado em casa ou nas ruas.

Vivemos um tempo, é verdade, de transição e grande turbulência. As crianças e os jovens têm poucas referências positivas entre as pessoas de destaque na sociedade.

A carreira de professor, que deveria ser sempre venerada, encontra-se desvalorizada, e as escolas públicas, sucateadas, a indicar que não navegamos em mares tranquilos quanto à educação, que é uma força capaz de reformar os homens[4]. E a escola, que ao lado do lar, é um dos principais espaços para o desenvolvimento da arte de formar os caracteres[5] passa por momentos delicados.

As denúncias de corrupção e desmandos povoam as páginas dos jornais e dos noticiários televisivos, a ponto de saturar a mente dos adultos, o que dirá da mente ávida de exemplos e de novidades desses pequenos, que estão com a personalidade em formação!

A neurociência demonstra quão importante é a fase infanto-juvenil para equilibrar o balé bioquímico, de permanente conflito entre o lado emocional, instintivo e o ordeiro, racional[6] do cérebro em desenvolvimento dos Espíritos milenares que são as crianças e adolescentes, lançados todos os dias na torrente da população, sem princípios, sem freio e entregues a seus próprios instintos[7], conforme anotou Kardec.

A Doutrina Espírita ensina que todos trazemos a bagagem de nossas existências pretéritas e que não estamos neste ou naquele grupo familiar por acaso. São, muitas vezes, grupos de acerto, onde estaremos juntos para a rearmonização, desenvolvendo novos hábitos, ao tempo em que reconstruímos uma história de afeto que nem sempre foi exitosa.

Há casos em que Espíritos que muito se odiaram na Terra pedem para renascer na família daquele a quem detestou e o incessante contato com seres a quem odiou constitui prova terrível, sob a qual não raro sucumbe se não tem bastante forte a vontade. Assim, conforme prevaleça ou não a resolução boa, ele será o amigo ou inimigo daqueles entre os quais foi chamado a viver .8

Acresce a isso o fato de, pela nossa invigilância, ainda sintonizarmos com entidades desencarnadas infelizes que, de ambientes sórdidos na Espiritualidade, influenciam os incautos, a ponto de contribuírem paragrande percentagem dos acidentes verificados diariamente nas vias públicas e pelos domicílios particulares: atropelamentos, quedas, braços e pernas partidos, queimaduras, suicídios, homicídios, brigas, escândalos, confusões domésticas, assaltos etc.9

 Esses Espíritos fazem isso pelo fato de odiar os homens, porque igualmente foram perseguidos, quando homens, pela sociedade, que nunca os protegeu contra os males com que tiveram de lutar: doenças, miséria, fome, falta de instrução, orfandade, desemprego, delinquência, desesperos de mil e uma naturezas… E muitos destes foram, com efeito, delinquentes que a sociedade perseguiu e levou ao desespero, em vez de ajudá-los a se reeducarem para Deus… O resultado aí está: (…) infestam, como Espíritos, a sociedade, e prejudicam-na, acobertados pelo segredo da morte…10

No bojo da família desajustada, e do egoísmo social, reside a causa do maior número de violência praticada por e contra as crianças e jovens do nosso país.

Se os pais cumprem todos os seus deveres paternos, são calmos e pacíficos, dão bons exemplos e mesmo assim o filho é violento e agressivo, estamos diante de um Espírito muito renitente e não cabe responsabilidade aos pais por ele ter enveredado pelo caminho do mal.11

É grande a responsabilidade das autoridades governamentais para dar à família a assistência e o amparo que ela carece. É indispensável aparelhar melhor a rede de proteção à saúde, à educação e de amparo à família, para investir na causa desses problemas, ao invés de procurar apenas remediar-lhes os efeitos.

Como disse o filósofo Bertolt Brecht, do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.

Enquanto tivermos a família carente e desajustada, na qual o pai é um eterno ausente; orfanatos lotados; sucateamento da escola pública (não por culpa dos professores, bem entendido); falta de creches e escolas em tempo integral; ausência de programas oficiais de apoio, orientação e acompanhamento da família; carência de espaços de convivência e lazer para os infantes nas periferias; escassez de programas que estimulem o ensino técnico, para qualificação da mão de obra juvenil e maior facilidade para colocação no mercado quando chegue a idade produtiva; acesso fácil às drogas chamadas lícitas, como as bebidas alcoólicas (que inclusive têm venda permitida nos eventos esportivos e propaganda liberada nos meios de comunicação); falta de uma política eficiente de combate às drogas ilícitas; menores infratores sendo encaminhados para presídios infectos sem proposta de reeducação e sem esperança de ressocialização; e deficiência de atendimento na rede pública de proteção à saúde e educação, continuaremos com pouco êxito na busca de uma sociedade menos violenta, mais justa e igualitária, princípio fundamental da nossa Constituição.

A desigualdade das condições sociais não é Lei da Natureza, mas obra do homem,12 a quem caberá procurar a solução.

O Brasil teve avanços consideráveis nas suas leis, nos últimos anos, com o advento da Constituição Federal de 1988, chamada Constituição Cidadã; do Estatuto da Criança e do Adolescente, do Código de Defesa do Consumidor, do Estatuto do Idoso, de leis ambientais modernas e de outras iniciativas que visam aproximar o direito humano do direito natural.

Isso é bom porque, segundo anota Kardec, nos povos, determinam a atração dos Espíritos os costumes, os hábitos, o caráter dominante e as leis, as leis sobretudo,  porque o caráter de uma nação se reflete nas suas leis.13

Mas não é só de leis que precisamos, nem do Governo a responsabilidade por tudo o que acontece. Cumpre também à sociedade cuidar para que os direitos estabelecidos na Constituição, em relação à criança, ao adolescente e ao jovem, sejam efetivamente atendidos, com absoluta prioridade, como está no texto da nossa Carta Magna, assegurando-lhes o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. 14

Para aspirarmos a um mundo melhor na Terra, um mundo sem tanta violência, sem agressões entre pais e filhos, sem tanta maldade nos corações revoltados, precisamos pensar melhor nos pequeninos.

André Luiz sugere que podemos começar matriculando nossos filhos e tutelados nas escolas de evangelização espírita, para que os companheiros recém-encarnados possam iniciar com segurança a nova experiência terrena; distribuindo as obras infantis da literatura espírita, colaborando na implantação essencial da Verdade Eterna; colaborando decididamente na recuperação de crianças desajustadas e enfermas15; incentivando a criação de seções e programas destinados à criança em particular, nos empreendimentos doutrinários; solidarizando-nos com os movimentos que digam respeito à criança e ao jovem, em todas as esferas, melhorando métodos e ampliando tarefas;16 e fazendo tudo o mais que o nosso coração possa recomendar.

Dessa maneira, mais do que atender ao mandamento constitucional, a sociedade estará se vacinando contra o egoísmo que a todos assola e fazendo a sua parte, para que a infância não seja esquecida.

É o Espírito Clélia Rocha quem lembra que essas crianças… aportaram na Terra cheias de confiança nos irmãos que as antecederam no orbe e que deixaram no Além promessas e projetos de atendimento e de orientação aos pequeninos, exatamente para suplantar o pretérito de omissões e despautérios já vivenciados.

(…) Tudo isso se perde, no entanto, na correnteza dos interesses imediatistas de projeção social e da ganância desmedida, que desviam recursos humanos e financeiros, valiosos e variados, da rota da cidadania e dos caminhos da caridade, para favorecimentos inconfessáveis.

Unamos esforços, dessa maneira, em redor da infância e da juventude, ardorosamente, por sabermos que ainda há tempo de diminuir as dores futuras da Humanidade, através do labor que iniciemos agora ou que ajudemos em sua manutenção.

Cerremos fileiras em torno do pensamento de Jesus, atendendo à Sua proposta de deixar que os pequenos O possam encontrar, até a Ele chegar, sem qualquer impedimento de nossa parte, pelos caminhos terrenos.17

 

1 TEIXEIRA, José Raul. Para uma vida melhor na terra. Niterói: Fráter, 2014. cap. 21, p. 117.

2 http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2015/03/18/violencia-silenciosa-as-agressoes-de-filhos-contra-pais.htm

3 https://www.youtube.com/watch?v=fmNawDzqMFo

4 KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. 82. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. Resposta à questão 796.

5 Op. cit. Nota à questão 685a.

6 A MENTE impulsiva dos jovens. Revista Veja, ed. 2430, 17 jun. 2015.

7 KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. 82. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001.  Nota à questão 685a.

8 __________. O Evangelho segundo o Espiritismo. 107. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1993. cap. XIV, item 9.

9 PEREIRA, Yvonne A. Devassando o invisível. 9. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1994. cap. X, p. 219.

10 Op. cit. p. 220.

11 KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. 82. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. questão 583.

12 Op. cit. questões 806 e 806a.

13 Op. cit. Nota à questão 521, grifei.

14 SENADO FEDERAL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, 2003. art. 227, grifei.

15 VIEIRA, Waldo. Conduta espírita. Pelo Espírito André Luiz. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB. cap. 21.

16 Em Curitiba, há, por exemplo, programas de apadrinhamento afetivo, como o Projeto Dindo e Projeto Recriar, que têm tido excelentes resultados na forma de suplementar o atendimento a crianças e adolescentes acolhidos em instituições.

17 TEIXEIRA, José Raul. Para uma vida melhor na Terra. Niterói: Fráter, 2014. cap. 21, p. 118.


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Out/2015