Reabilitação por Dineu de Paula

Em artigo precedente, nominado Pecado e castigo,  já se tratou do mecanismo de funcionamento das leis divinas, para concluir que elas dão resposta precisa a todo comportamento humano, sem possibilidade de burlas ou equívocos.

O foco do presente texto é refletir a respeito das consequências de atos infelizes, que implicam violação da ordem cósmica, voltada à realização da paz e da felicidade de todos os seres.

Ao contrário de outras correntes religiosas, o Espiritismo nega a existência das penas eternas, por considerá-las incompatíveis com a infinita bondade divina e também por afrontarem a lógica. Então, a reabilitação do Espírito faltoso é sempre possível, por graves que se afigurem os equívocos por ele cometidos.

A respeito dessa reabilitação, Kardec ensina: Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas conseqüências. (O Céu e o Inferno, 1ª parte, capítulo VII, item 16).

Pode-se considerar a expiação como a parte mais dolorosa da empreitada e possui uma função precípua: engendrar a redenção. No contexto da Codificação Espírita, ela é muitas vezes tratada pelo termocastigo.

Nessa linha, Kardec afirma: A duração do castigo depende da melhoria do Espírito culpado. Nenhuma condenação por tempo determinado lhe é prescrita. O que Deus exige por termo de sofrimentos é um melhoramento sério, efetivo, sincero, de volta ao bem. (Obra citada, item 13).

Também são nesse sentido as palavras de Paulo de Tarso, quando diz que o castigo é uma certa soma de dores necessárias a desgostá-lo da sua deformidade, pela experimentação do sofrimento. O castigo é o aguilhão que estimula a alma, pela amargura, a se dobrar sobre si mesma e a buscar o porto de salvação. O castigo só tem por fim a reabilitação, a redenção. (O Livro dos Espíritos, questão nº 1.009).

A expiação não é imperiosa em todos os casos e deriva mais da dureza dos corações humanos do que do império dos estatutos divinos. Ela é a soma de dores necessárias para a alma desgostar-se do vício que a acomete e a faz violar a ordenação cósmica.

Sua função assemelha-se à da dor para o corpo físico: quando alguém coloca a mão no fogo sente dor. Essa não é um castigo, mas uma advertência de que aquele ato coloca em risco a vida ou a saúde.

Com a expiação é semelhante, pois o sofrimento que propicia destina-se a conscientizar o Espírito de que está em mau caminho. Sem esse sofrimento, ele aprofundaria os equívocos e mais se complicaria perante as leis divinas.

Enquanto não surge a consciência do equívoco e a disposição para enfrentar suas consequências, a expiação persiste. Ou seja, ela não tem prazo prefixado e nem é eterna.

Por exemplo, alguém que, em posição de destaque e poder, se sentiu superior e humilhou os fracos, renasce em condição modesta e experimenta variadas situações humilhantes. Essas vivências se sucedem até que, em seu íntimo, germine o sentimento de humildade e a ciência de que os fracos devem ser amparados.

O sofrimento, moral ou físico, não é um fim em si mesmo. Deus, em sua bondade infinita, nunca se regozija com o sofrer humano e não cria mecanismos com esse objetivo. O sofrimento expiatório destina-se a propiciar o progresso.

Ocorre que o progresso somente se verifica quando surge no íntimo do ser faltoso o arrependimento do ato praticado, segundo elemento do processo de reabilitação.

A título de arrependimento não conta apenas o medo das consequências. Isso é apenas sinal de covardia, e não de real evolução.

Muitas vezes, quem errou chega a orar pedindo que não descubram o que fez. Ocorre que tal sentimento é muito pequeno e não sinaliza evolução, que constitui o real objetivo da lei.

Se está em pauta apenas o medo das consequências, em circunstâncias nas quais se imagine seguro de não ser descoberto, são grandes as chances de o Espírito tornar a delinquir.

Quem se arrepende apresenta-se mortificado pelo comportamento que adotou e deseja ardentemente reparar o que fez.

Esse aspecto – desejo ardente de reparar – é muito importante, a evidenciar que não se trata de algo passivo, a exemplo de apenas uma consciência de culpa. Parece que a culpa integra o arrependimento, como um seu princípio – a mortificação, o desconforto pelo mal feito. Mas é preciso rapidamente evoluir para agregar o aspecto dinâmico, que consiste na vontade firme de enfrentar todas as consequências do ato equivocado.

É o que se depreende da resposta da Espiritualidade Superior à questão nº 991 de O Livro dos Espíritos, a respeito de qual a consequência do arrependimento no estado espiritual, quando afirma textualmente: desejar o arrependido uma nova encarnação para se purificar.

Ainda mais clara é a resposta do Espírito Lisbeth a Kardec: O arrependimento é inútil quando apenas produzido pelo sofrimento. O arrependimento profícuo tem por base a mágoa de haver ofendido a Deus, e importa no desejo ardente de reparação. (O Céu e o Inferno, 2ª parte, capítulo IV).

Quando o Espírito chega nesse estágio, seu íntimo já foi reparado: ele já se desgostou do vício e corajosamente almeja assumir as consequências dos atos infelizes do pretérito. Trata-se de alguém renovado.

Entretanto, ainda resta a derradeira etapa do processo: a reparação propriamente dita. É nela que são enfrentados e anulados todos os efeitos negativos do antigo proceder. É o que ensina Kardec: O arrependimento suaviza os traços da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa. (O Céu e o Inferno, 1ª parte, capítulo VII, item 16).

É ainda ele quem diz: A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal. Quem não repara os seus erros numa existência, por fraqueza ou má vontade, achar-se-á numa existência ulterior em contato com as mesmas pessoas que de si tiveram queixas, e em condições voluntariamente escolhidas, a demonstrar-lhes reconhecimento e fazendo-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito. (Obra citada, item 17).

A depender das consequências do que se fez, a reparação pode demandar um longo tempo. Mas o ser sinceramente arrependido dedica-se corajosamente ao resgate de suas faltas. Afinal, somente após reabilitar-se perante a própria consciência é que alcançará paz.

Uma questão que se coloca é se a reparação precisa ser perante o próprio ofendido.

Em princípio, se for possível a reparação diretamente com a vítima, é assim que ela deve se processar. Nessa linha, Jesus afirmou: Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás a no caminho com ele. (Mateus, 5:25).

Parece algo lógico, pois para se acertar com um desafeto é preciso enfrentar o orgulho, algo que demanda esforço no sentido do crescimento pessoal. Com muita propriedade, a Espiritualidade Superior afirma na resposta à questão nº 1.000 de O Livro dos Espíritos: a reparação nenhum mérito apresenta, se não atinge o homem nem no seu orgulho, nem nos seus interesses materiais.

Caso contrário, o homem poderia pretender comprar o céu com cestas básicas, por assim dizer. Ofenderia um desafeto e se reabilitaria fazendo o bem a terceiros, sem se reconciliar com aquele. Trata-se de algo em total descompasso com a ideia de reabilitação, que sempre implica progresso espiritual.

Entretanto, caso não seja possível a reparação diretamente com o ofendido, ela pode e deve dar-se mediante atos nobres para com terceiros. Por exemplo, o ofendido evoluiu, atingiu esferas superiores, e de nada mais necessita que esteja dentro das possibilidades do ofensor.

Como a ofensa é sempre em relação à lei divina, embora representada por determinado ser, a reparação também se dá quanto a ela, em última análise.

Outro ponto a destacar é que a matemática divina, no que tange à reparação, é plena de misericórdia. Consoante afirmou o apóstolo Pedro, o amor cobre a multidão de pecados (Primeira Epístola Universal, 4:8). O relevante é que os gestos sejam mesmo plenos de amor, a revelar um Espírito renovado. É crucial incorporar no próprio ser certa doçura, lançar ao semelhante um olhar de benevolência, aproximar-se emocionalmente dele. Não se trata apenas de fazer e dar coisas.

No presente estudo, já se afirmou que a expiação não é uma fase necessária da reabilitação, mas deriva principalmente da dureza do coração humano. Então, essa etapa de sofrimento pode ser pulada, por meio de atitudes ativas com vistas à reparação.

Ao perceber que cometeu um erro, o homem pode se conscientizar da impropriedade de seu agir, imbuir-se do desejo ardente de reparar o mal feito e adotar as providências para tal necessárias. Não precisa ficar remoendo culpa e esperando o rebote da lei.

Nesse sentido, a questão nº 1.000 de O Livro dos Espíritos fala da possibilidade de resgatar nesta mesma vida as faltas cometidas, por meio da reparação. Nela se salienta, de modo extremamente feliz, que só por meio do bem se repara o mal.

Em suma, o sofrimento no processo de reabilitação só se destina a propiciar a disposição de melhorar e a ação positiva propriamente dita.

O relevante, sempre, é fazer e viver o bem, por constituir esse o propósito da vida.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BÍBLIA. Português. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.

2. KARDEC, Allan. Tradução de Guillon Ribeiro. O Céu e o Inferno. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

3. KARDEC, Allan. Tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Ago/2012