Autodespertamento por Sandra Borba Pereira (RN)

Formulai, de vós para convosco, questões nítidas e precisas

 e não temais multiplicá-las. Justo é que gastem

 alguns minutos para conquistar uma felicidade eterna.

Santo AgostinhoO livro dos Espíritos – 919a

 

O profundo e oportuno alerta de Santo Agostinho continua ressoando em nossas vidas como apelo permanente de esforço para nosso processo de autoconhecimento, caminho para a conquista da felicidade e da paz que tanto almejamos.

Multiplicam-se mensagens dos amorosos benfeitores nos convidando a esse processo de interiorização. No nível intelectual, entendemos a importância desse chamamento, mas, logo nos deparamos com dificuldades, mecanismos de fuga, dentre outras atitudes que nos mantém distantes do real conhecimento do ser que somos. Resultados dessa postura? Angústias, sentimento de vazio, surpresas com as próprias ações/reações, justificativas para nossas condutas, projeção dos nossos defeitos nos outros, falta de indulgência para com o nosso próximo e toda uma longa lista de consequências danosas na nossa existência atual e, dentro de nossas convicções, nas próximas existências também, num ciclo vicioso que só produz infelicidade.

Tendo oportunidade de realizar leituras em torno do assunto, apresento ao leitor algumas questões autorreflexivas em torno do tema autodespertamento, que já tivemos a oportunidade de abordar em algumas palestras públicas. A teóloga Hanna Wolff e a benfeitora Joanna de Ângelis, pela mediunidade de Divaldo Franco, foram nossas principais fontes de inspiração, além do rico conteúdo da lavra do Espírito Santo Agostinho..

Logo de imediato surge a questão: Queremos de fato nos conhecer?  Por quê? Porque nem sempre desejamos de fato realizar o mergulho interior, fazer a viagem para dentro. Sentimo-nos como uma espécie de um todo, que se sabe formado de muitas partes: educação familiar, ambientes, companhias, experiências, leituras, dentre outros elementos que contribuem para nossa maneira de ser. Como espíritas, ainda temos nosso passado, tendências, inclinações, aptidões, limites.

De algum modo sabemos algo sobre nós, ainda que superficialmente: o que nos agrada, o que nos enerva, alguns sonhos e aspirações, dificuldades pessoais. Diante, porém, de certas vivências,  que nos atingem na trajetória  existencial, sentimo-nos perdidos, afogueados, contraditórios, desequilibrados, às vezes incoerentes, enervados  e… angustiados, infelizes, surpresos conosco, decepcionados com a autoimagem que criamos a nosso respeito.

Chega então a crise, o que é ótimo porque nos estimulará a perguntar sobre nós, nosso modo de ser, sentir, pensar, agir, reagir. Aí pode se instalar, de fato, o desejo de nos conhecermos para responder às indagações que assumam à própria consciência.

Se desejamos sim nos conhecer, por que apresentamos tantas resistências às conquistas que  o autoconhecimento nos pode proporcionar?  Acreditamos que os medos, a autodecepção, a acomodação, o orgulho e a vaidade ou, talvez, até as exigências conscienciais que surgirão como decorrência, podem estar na raiz de certa resistência que apresentamos ao processo de autoconhecimento para o autodespertamento.

Seres ainda infantilizados, sob o ponto de vista psicoespiritual, criaturas arraigadas ao aqui e agora do concreto, sequiosas quanto à satisfação dos próprios  interesses e más paixões, apresentamos impulsos de pular essa página deixando a vida rolar. Essa atitude apenas adiará o inevitável encontro que temos conosco, com o nosso eu verdadeiro, destinado irremediavelmente  à felicidade, à vivência da Lei Divina e Natural,  fustigado pela Lei do Progresso da qual não podemos nos apartar. Vamos ter que nos enfrentar mesmo! Melhor não adiar!

Talvez essa resistência tenha como razão maior o medo de identificar a própria  imperfeição .  Sem identificar nossas imperfeições e defeitos, vamos permanecer inertes, estacionários. E nos tornamos mais frágeis diante dos testes da vida. Lobos caem em armadilhas para lobos, mas será que temos uma porção lobo  que nos precipitará na armadilha? Só a coragem de identificar a sombra do homem velho egoísta,  que se manifesta em múltiplas formas de expressão do nosso ser, nos possibilitará  o encontro com a nossa sombra íntima para que aí exercitemos o autoperdão e vislumbremos que somos filhos da luz e que para ela devemos nos dirigir.

Ao enfrentar, corajosamente, nossas limitações poderemos  agora indagar:  Por que então teimo em projetar  minha “sombra”  íntima nos outros para justificá-la e justificar-me? E a resposta vem de imediato: porque é mais fácil criticar o outro, tecer projetos de mudança para o outro, condenar o outro, culpar o outro pelas nossas dificuldades. Hannah Wolf (   ) em sua obra Jesus Psicoterapeuta analisa a projeção da sombra, usando a  passagem evangélica do paralítico da piscina de Betesda (em hebraico Bethzatha) que lá estava, há décadas, esperando que alguém o carregasse até as águas que, segundo a tradição, de tempos em tempos, era movimentada por um anjo. Aquele que logo mergulhasse obteria a cura. No entanto, quando Jesus indaga se ele queria tornar-se são, o homem reclama das pessoas que não o carregavam, projetando assim  a continuidade de sua dor  nos outros . (Jo 5:11)

Diferentemente do paralítico, o cego  Bartimeu  é aquele que grita pelo nome do Senhor até que Ele o escutasse e lhe indagasse  sobre seu desejo. A resposta ativa e clara é lição viva para todos nós: Que eu veja Senhor. (Lc 18: 35-43)

É o próprio Jesus quem nos alertará:  Como é que vedes um argueiro no olho de vosso irmão, quando não vedes uma trave no vosso olho? (Mt 7:3-5). Olhos de ver é o de que precisamos para avançar.

Entretanto, para avançar preciso de um caminho, de um norte e por isso  necessito perguntar: Tenho um programa a ser executado, paulatinamente, com vistas ao alcance de minha melhoria?  E ainda: Se tenho esse programa, sou capaz de executá-lo?  Exercito-me nas atividades que me proponho realizar?

Ler e reler sempre a resposta de Santo Agostinho em O Livro dos Espíritos é encontrar elementos para traçarmos esse programa de melhoria íntima. Multiplicar perguntas em torno do nosso comportamento tendo o Evangelho como referência, traçar metas, exercitar a vontade, vigiar sempre, são atitudes que nos conduzirão não só ao autoconhecimento, mas ao autodespertamento quanto à necessidade de modificação de conduta, na busca da integração com a Vontade Divina a nosso respeito.

O caminho é longo e não é fácil, mas podemos começar com os primeiros passos. Nessa caminhada, nos aconselha o Espírito Joanna de Ângelis, é preciso evitar a autocompaixão, a censura ao comportamento alheio, a autopunição e a autodesvalorização, além da inveja das conquistas do outro.

Para tanto, é indispensável investir no autoamor, no exercício do altruísmo e da fraternidade, na vivência da humildade e na certeza de que somos um projeto divino que necessita ser construído pelas nossas próprias mãos, um terreno a ser lavrado por nós mesmos. Sigamos, desse modo, o sábio conselho de Emmanuel: Afastemo-nos, pois, das nossas inibições e aprendamos com o Cristo a sair para semear.

Boa viagem para todos nós, ao país de nós mesmos, ao encontro do nosso autodespertamento para a união definitiva com os valores eternos do Evangelho de Jesus.

 

Referências:

ÂNGELIS, Joanna de/FRANCO. Divaldo P. Em Busca da Verdade. Salvador: LEAL, 2009.

EMMANUEL/F. C. Xavier. Fonte Viva. 28ª edição, Rio de Janeiro: FEB, 2002, cap. 64.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Edição Especial. Rio de Janeiro: FEB, 2007.

WOLFF, Hanna. Jesus Psicoterapeuta. São Paulo: Paulinas, 1988.


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Abril/2013