Laços eternos

Clélia Duplantier ensina que Três caracteres há em todo homem:
o do indivíduo, do ser em si mesmo; o de membro da família e,
finalmente, o de cidadão
.[1]

 

Enquanto indivíduo, além das responsabilidades que nos cabe enquanto membro da família e enquanto cidadão, temos que atender o que diz respeito a nós próprios que, em síntese, é atender o corpo, a mente e o Espírito, zelando e melhorando sempre.

A mesma autora[2] diz, ainda, que Podem aplicar-se, sem medo de errar, as leis que regem o indivíduo à família, à nação, às raças, ao conjunto dos habitantes dos mundos, os quais formam individualidades coletivas.

E que, salvo alguma exceção, pode-se admitir como regra geral que todos aqueles que numa existência vêm a estar reunidos por uma tarefa comum já viveram juntos para trabalhar com o mesmo objetivo e ainda reunidos se acharão no futuro, até que hajam atingido a meta, isto é, expiado o passado, ou desempenhado a missão que aceitaram.[3]

Assim, estamos no lugar certo, no tempo certo, com as pessoas certas, nas condições necessárias, com os compromissos devidamente assumidos, restando-nos realizar, realizar-se e facultar realizações dos demais.

Continua a Sra. Duplantier: A solidariedade, portanto, que é o verdadeiro laço social, não o é apenas para o presente; estende-se ao passado e ao futuro, pois que as mesmas individualidades se reuniram, reúnem e reunirão, para subir juntas a escala do progresso, auxiliando-se mutuamente. Eis aí o que o Espiritismo faz compreensível, por meio da equitativa lei da reencarnação e da continuidade das relações entre os mesmos seres.

Cientes ou não, somos regidos por essa dinâmica existencial que nos entrelaça e nos põe lado a lado uns dos outros, conforme sejam os desígnios a que estejamos sujeitos, a fim de construirmos bons resultados com nossas ações em benefício de todos.

Com isso, cresce em expressão de verdade e nos dá nova amplitude de entendimento a conclamação feita por Jesus: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.[4]

Afinal, na equação da vida, juntos e entrelaçados compomos somatório, onde o resultado final é a felicidade. É lei.

Nós, que sabemos essas coisas, o que temos feito de especial, no que diz respeito a nós próprios, à família e perante a sociedade?

Nós, espíritas-cristãos que dizemos ser, que esforços temos feito para modificar para melhor o estado vigente das coisas, em cada um dos caracteres que nos diz respeito, bem como no conjunto deles?

Particularizemos um pouco mais. Examinemo-nos no âmbito interno do Centro Espírita de nossa escolha.

É sabido que o espírita, no conjunto de realizações espíritas, é uma engrenagem inteligente com o dever de funcionar em sintonia com os elevados objetivos da máquina.[5]

Também sabemos que cada companheiro é indicado à tarefa precisa; cada qual assume feição de peça particular na engrenagem do serviço, sem cuja cooperação os mecanismos do bem não funcionam.[6]

Mas, mesmo compreendendo-se que cada obreiro da seara espírita se incumbe de tarefa específica, é forçoso indagar, de quando em quando, a nós mesmos, o que somos, no grupo de trabalho a que pertencemos, como nos recomenda Emmanuel, Espírito[7]:

Um apoio nas obras ou uma brecha para a influência do mal?

Um esteio de paz ou um veículo da discórdia?

Uma bênção ou um problema?

O bom senso de Allan Kardec[8] orienta-nos postura diante de tantos compromissos: Quando todos os homens compreenderem o Espiritismo, compreenderão também a verdadeira solidariedade e, conseguintemente, a verdadeira fraternidade. Uma e outra então deixarão de ser simples deveres circunstanciais, que cada um prega as mais das vezes no seu próprio interesse e não no de outrem.

Não será ele, portanto, que fará as instituições do mundo regenerado; os homens é que as farão, sob o império das ideias de justiça, de caridade, de fraternidade e de solidariedade, mais bem compreendidas, graças ao Espiritismo.

Ouçamos o canto maternal da Benfeitora Espiritual Joanna de Ângelis[9], conclamando-nos a empunharmos a bandeira do dever cumprido e do amor recitado na prática de cada dia, onde e com quem estivermos:

Formamos uma grande família, na sublime família universal, uma equipe de espíritos afins.

Vinculados uns aos outros desde o instante divino em que fomos gerados pelo Excelso Pai, vimos jornadeando a penosos contributos de sofrimentos, em cujas experiências, a pouco e pouco, colocamos os pilotis de segurança para mais expressivas construções…

Errando, repetimos a tarefa, tantas vezes quantas se nos façam imprescindíveis para a fixação das lições superiores no recôndito do espírito necessitado.

Sempre em grupos afins, volvemos ao mergulho no carro somático e tentamos, em equipe, estabelecer as bases da felicidade ao calor da Mensagem Evangélica (…)

Já não se dispõe de tempo para futilidade nem tampouco para ilusão.

Conscientes das próprias responsabilidades não esperemos em demasia pela transformação de fora, mas envidemos esforços para o aprimoramento interior.

Estamos no lugar certo, ao lado das pessoas corretas, vivendo com aqueles que nos são os melhores elementos para a execução do programa.

Vinculados e adesos ao trabalho, nos Grupos de Ação, Casas e Entidades veneráveis, auxiliemos, verdadeiramente ligados à Causa, ao Cristo e a Kardec.

Todos nos constituímos peças da engrenagem feliz para a construção do “reino de Deus” que já se instala na Terra.

Aclimatados à atmosfera do Evangelho, respiremos o ideal da crença…

…E unidos uns aos outros, entre os encarnados e com os desencarnados, sigamos.

Jesus espera: avancemos!

Rendamos vivas à união fraternal. Rendamos vivas à família. Rendamos vivas ao trabalho harmônico em grupo.


 


[1] KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Cap. As expiações coletivas.

[2] Idem.

[3] Idem.

[4] Marcos, 12:31.

[5] XAVIER, Francisco Cândido, e VIEIRA, Waldo. Estude e Viva. Pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz. Cap. O espírita na equipe.

[6] XAVIER, Francisco Cândido. Educandário de luz. Diversos Espíritos. Cap. 5.

[7] Idem: Cap. 18.

[8] KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Cap. As expiações coletivas – Nota.

[9]FRANCO, Divaldo Pereira. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Após a tempestade. Cap. 24.


Editorial do Jornal Mundo Espírita - Fevereiro/2014