Continuação da vida por Rogério Coelho

Depois do túmulo a vida continua ainda mais abundante

“(…) Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância”.

Jesus.  (10:10.)

 

Na monumental “Série André Luiz”, psicografada por Chico Xavier, aprendemos com o instrutor Albano Metelo[1], orientador das equipes socorristas formadas por Espíritos que desenvolviam trabalhos na Crosta Planetária em favor dos encarnados:

“(…) O caminho vertical e purificador da superioridade é a sublime destinação de todos. O cume bafejado de resplendor solar é sempre um desafio benéfico aos que vagueiam sem rumo, na planície.   O Alto polariza, naturalmente, as supremas esperanças dos que ainda permanecem embaixo…   Todavia, à medida que penetramos o domínio da altura, imprimem-se-nos na mente e no coração as  leis sublimes de fraternidade e misericórdia.  Os grandes orientadores da Humanidade não mediram a própria grandeza senão pela capacidade de regressar aos círculos da ignorância para exemplificarem o amor e a sabedoria, a renúncia e o perdão aos semelhantes.  É por esse motivo que precisamos temperar todo impulso de elevação com o sal do entendimento, evitando a precipitação nos despenhadeiros do egoísmo e da vaidade fatais.

Outrora, quando nos envolvíamos ainda nos fluidos da carne terrestre, supúnhamos com desacerto que a vaidade e o egoísmo somente poderiam vitimar os homens encarnados.   A Teologia, não obstante o ministério respeitável que lhe está afeto enclausurava-nos a mente em fantasiosas concepções do reino da verdade.   Esperávamos um paraíso fácil de ser conquistado pela deficiência humana e temíamos um inferno impossível de regenerar-nos.   Nossas idéias alusivas à morte confinavam-se a essas ridículas limitações…   Hoje, porém, sabemos que depois do túmulo há simplesmente continuação da vida.   Céu e Inferno residem dentro de nós mesmos.   A virtude e o defeito, a manifestação sublime e o impulso animal, o equilíbrio e a desarmonia, o esforço de elevação e a probabilidade da queda perseveram aqui, após o trânsito do sepulcro, compelindo-nos à serenidade e à prudência.   Não nos encontramos senão em outro campo de matéria variada, noutros domínios vibratórios do próprio Planeta em cuja Crosta tivemos experiências quase inumeráveis.   Como não equilibrar, portanto, o coração no exercício efetivo da solidariedade?  Logicamente não exortamos ninguém a novos mergulhos no lodo antigo, não desejamos que os companheiros previdentes regressem à posição de filhos pródigos, distanciados voluntariamente do Eterno Pai, nem pretendemos interromper a marcha laboriosa dos servidores de boa vontade, a caminho dos cimos da vida.  Apelamos tão só no sentido de cooperardes nos trabalhos de socorro às esferas escuras.  Sois livres e dispondes de tempo, no desempenho dos deveres nobilitantes a que fostes chamados em nossa colônia espiritual.  Nada mais razoável que o proveito da oportunidade no planejamento da ascese.   Entretanto, ousamos rogar vosso interesse generalizado pelos que erram “no vale da sombra e da morte”, aguardando a esmola possível de vosso tempo, em favor dos nossos semelhantes, defrontados agora por situações menos felizes, não em virtude dos desígnios divinos, mas em razão da imprevidência deles mesmos.  Contudo, qual de nós não foi invigilante um dia?

De nossos amigos encarnados não podemos esperar, por enquanto, concurso maior e mais eficiente nesse sentido.   Presos nas grades sensoriais progridem lentamente na aprendizagem das leis que regem a matéria e a energia.   As criaturas, porém, atravessam breve período de existência no mundo carnal.   A maioria demora-se nas estações expiatórias do resgate difícil e confunde-se nas vibrações perturbadoras do sofrimento e do medo.   Fazem da morte uma deusa sinistra.   Apresentam o fenômeno natural da renovação com as mais negras cores.   Agarradas às sensações do dia que passa, ignoram como dilatar a esperança e transformam a separação provisória numa terrível noite de amarguroso adeus.  Vítimas da ignorância em que se comprazem, internam-se em florestas de sombra, onde perdem toda a paz, convertendo-se em presas delirantes dos infernos de horror, criados por elas mesmas nos desvairamentos passionais.   Como esperar delas a colaboração precisa, com a extensão desejável, se, pela indiferença para com os próprios destinos, mergulham-se diariamente nos rios de treva, desencanto e pavor?   Unamo-nos, portanto, auxiliando-as, segundo os preceitos evangélicos, descortinando-lhes novos horizontes e aclarando-lhes os caminhos evolutivos.

Recordemos o Divino Mestre e não desdenhemos a hora de servir, não de acordo com os nossos caprichos pessoais, porém de conformidade com os seus desígnios e suas leis.   Campos imensuráveis de trabalho aguardam-nos a cooperação fraterna e a semeadura do bem produzirá nossa felicidade sem fim!…”

Quando Jesus prometeu-nos vida abundante, Ele absolutamente não fazia menção à fartura dos perecíveis bens materiais, mas, sim, à riqueza imarcescível dos inalienáveis bens espirituais que, uma vez amealhados, são definitiva e irrevogavelmente incorporados à economia espiritual.  Essa a verdadeira abundância a que Se referiaO futuro nos aguarda, pois!…

Compreendendo essa insofismável realidade, Humberto de Campos escreveu:  “Se a Vida pode cerrar os olhos e restringir a acuidade de nossas percepções, a morte vem descerrar-nos um mundo novo, a fim de que possamos entrever as veredas mais profundas do plano espiritual”.

Há dois mil anos, Paulo de Tarso já estava ciente desta realidade que só hoje percebemos, que é a continuação da vida, vez que ao seu tempo ele afirmara com muita convicção em uma de suas cartas aos coríntios[2]: “Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens”.


 


[1] – XAVIER, F.C. Obreiros da Vida Eterna. 10.ed.Rio [de Janeiro]:FEB, 1979, cap. I.

[2] – I Cor., 15:19.


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Dezembro/2009