Espírita deve ser o nome de teu nome por Marcelo Garcia

No seu desenvolvimento, o Espiritismo tem passado por diversas fases de uma maneira bastante heterogênea, dependente das especificidades do Movimento Espírita em cada região.

Alguns o tratam com curiosidade desleixada, outros, respeitosa. Há os que o examinam com o especulo da ciência, outros, com o da filosofia. Existem os que buscam respostas para as suas dúvidas; outros, curas para as suas dores. Encontram-se, também, os que querem se apoiar nas propostas da Doutrina para pautarem seu comportamento.

Kardec previu que haveria fases, ao longo do tempo, para o desenvolvimento do Movimento, e dos adeptos, como no trecho que segue:

 Três períodos distintos apresenta o desenvolvimento dessas idéias: primeiro, o da curiosidade, que a singularidade dos fenômenos produzidos desperta; segundo, o do raciocínio e da filosofia; terceiro, o da aplicação e das consequências. O período da curiosidade passou; a curiosidade dura pouco. Uma vez satisfeita, muda de objeto. O mesmo não acontece com o que desafia a meditação séria e o raciocínio. Começou o segundo período, o terceiro virá inevitavelmente. O Espiritismo progrediu principalmente depois que foi sendo mais bem compreendido na sua essência íntima, depois que lhe perceberam o alcance, porque tange a corda mais sensível do homem: a da sua felicidade, mesmo neste mundo. Aí a causa da sua propagação, o segredo da força que o fará triunfar. (“O Livro dos Espíritos” – conclusão – item V).

Fica claro, neste trecho, um processo. Não podemos, portanto, estagnar no atender à curiosidade ou ao interesse em compreender as coisas. Devemos ir além. Aliás, isto é o que de fato o Espiritismo pode fazer pelo indivíduo, como vemos nesta passagem:

 O objetivo essencial do Espiritismo é o melhoramento dos homens. Não é preciso procurar nele senão o que pode ajudá-lo para o progresso moral e intelectual.   (“O Espiritismo em sua expressão mais simples” –item 35)

As pessoas têm diferentes razões para procurar a Doutrina Espírita. Uma parte deseja ver se existe comunicação de espíritos; outra espera fazer contato com familiares mortos; outra, ainda, vem buscar consolo por perdas.

Há quem deseje explicações para questões filosóficas da vida, cura para doenças diversas, quem busque um grupo de convivência ajustado às suas visões de mundo e de ética, entre outros.

Independente da razão pela qual um indivíduo chega ao Centro Espírita, devemos nos lembrar de dar atenção ao que o Codificador chamou de “objetivo essencial do Espiritismo”.

É comum e compreensível que, para parte das pessoas, a Doutrina Espírita não passe de um conjunto de conceitos, que podem nunca ser usados, ou dos quais se lance mão apenas em algumas circunstâncias.

Foi para esse tipo de atitude que fomos condicionados, quando estávamos na escola.

Treinados para absorver matérias, acumulando-as em blocos na memória, que devem ser acessados com destreza quando somos submetidos a exames.

Muitos, então, têm tendência a tratar o Espiritismo como uma matéria, conceitos que devem ser conhecidos, mesmo que não se entenda exatamente onde se vai aplicá-los ou como o fazer.

Usar a Doutrina Espírita como um conjunto de conhecimentos do qual se lança mão quando diante de um problema é ter uma fonte de consolo; entretanto, isso não aproveita todo o potencial de que a Doutrina Espírita dispõe para revolucionar a vida, modificar profundamente a visão de mundo e, consequentemente, as atitudes.

O Espiritismo deve colaborar com o progresso intelectual e moral das criaturas.

Sabe-se que progredir intelectualmente não é somente aprender coisas novas, mas aprender a pensar e interpretar as coisas de uma maneira mais adequada. Que progredir intelectualmente é desenvolver sabedoria para lidar com a vida e seus desafios de uma maneira consciente e deliberada, fazendo escolhas com conhecimento de causa. É aproveitar o melhor das diferentes circunstâncias, inclusive problemas, mesmo quando não haja solução.

O progresso moral, por sua vez, consiste no desenvolvimento de virtudes, observável na correção do sentimento e da conduta, na substituição dos vícios por atitudes mais saudáveis, no ajustamento às leis divinas.

 O verdadeiro Espírita não é o que crê nas manifestações, mas aquele que faz bom proveito do ensinamento dado pelos Espíritos. Nada adianta acreditar se a crença não faz com que se dê um passo adiante no caminho do progresso e que não o faça melhor para com o próximo.    (O Espiritismo em sua expressão mais simples – i. 36)

Está muito claro que o progresso não se dá simplesmente por saber o que é certo, mas a partir do momento em que tomamos decisões com base nestas convicções ou, ainda, em que interpretamos os acontecimentos de acordo com estes princípios.

Evidentemente, é útil compreendermos que o sofrimento tem sempre uma razão, no momento em que estivermos desnorteados ou inapelavelmente atados a algo que nos causa desconforto.

Entretanto, certamente seria muito mais útil se, durante o processo, nós estivéssemos cientes do objetivo da vida, atentos às múltiplas oportunidades de aprendermos com os desafios, sensíveis às sugestões dos amigos espirituais, raciocinando de uma maneira corajosa sobre as maneiras de tirar proveito, mesmo do sofrimento.

Pois essas são apenas algumas atitudes que podemos ter quando aproveitamos os ensinamentos dos Espíritos iluminados, oferecidos por meio de milhares de páginas psicografadas ou por intuição direta.

Dignifica, assim, a Doutrina que te consola e liber­ta, vigiando-lhe a pureza e a simplicidade, para que não colabores, sem perceber, nos vícios da ignorância e nos crimes do pensamento.

 «Espírita» deve ser o teu caráter, ainda mesmo te sintas em reajuste, depois da queda.

 «Espírita» deve ser a tua conduta, ainda mesmo que estejas em duras experiências.

 «Espírita» deve ser o nome de teu nome, ainda mesmo respires em aflitivos combates contigo mesmo.

 «Espírita» deve ser o claro adjetivo de tua institui­ção, ainda mesmo que, por isso, te faltem as passageiras subvenções e honrarias terrestres. (…)

 Guarda-a, pois, na existência, como sendo a tua res­ponsabilidade mais alta, porque dia virá em que serás naturalmente convidado a prestar-lhe contas.

(Emmanuel – “Religião dos Espíritos” – cap. 80)

 O pensamento de Emmanuel deixa claro a que ponto a Doutrina Espírita pode penetrar as nossas vidas, modificando-as.

“Espírita deve ser o nome de teu nome”.

Esta afirmação nos permite meditar sobre nossos papéis na vida.

Tendemos a nos identificar com um dos papéis que desempenhamos, por vezes mais do que com o próprio nome, especialmente com o profissional ou o familiar.

A proposta de Emmanuel é que, antes de qualquer papel que desempenhemos, antes mesmo do nosso nome, sejamos reconhecidos por sermos espíritas.

Existe grande distância entre ser pai espírita e ser espírita pai, assim como entre ser médico espírita e espírita médico.

O pai espírita se preocupará em oferecer orientação moral para o seu filho, desejará que ele frequente os grupos de evangelização e tentará sensibilizá-lo sobre a existência de espíritos e a vida após a morte.

O espírita pai, além disso, procurará sempre lidar com o seu filho considerando-o um espírito imortal, cheio de potenciais desenvolvidos e por desenvolver, retornando à jornada após uma série de sucessos e fracassos, ansioso por acertar nos campos em que se equivocou, mostrando, nos pequenos detalhes, de onde veio e para onde deve ir.

O médico espírita usaria o conhecimento espírita que tem quando parecesse interessante, colocaria obsessão entre os seus diagnósticos diferenciais para um paciente com doença mental, por exemplo.

Já o espírita médico olharia para uma pessoa que busca a sua ajuda como um ser interexistente, com provas e condições que ele mesmo pode ter pedido, que está na vida para aprender com essas provas, refletir sobre as conseqüências do que fez e que o colocaram na condição em que se encontra, e assim por diante.

Inúmeros outros exemplos poderíamos dar, do que seria usar a Doutrina Espírita em nossas vidas, e do que seria fazer da Doutrina Espírita parte da nossa vida.

O ponto a que queremos chegar é que o Espiritismo deve ser para nós um paradigma, ou seja, deve ser a baliza sobre a qual avaliamos tudo que acontece.

Não é suficiente olharmos para a vida sob a ótica materialista e usarmos o Espiritismo apenas quando este for conveniente ou quando aquela se mostre por demais incompleta.

Não devemos tratar o Espiritismo como algo a ser aprendido, mas algo a ser vivido, que deve ser compreendido para que possa ser vivido em toda a sua plenitude.

Que a meditação em torno dos ensinos dos espíritos se torne um dínamo, impulsionando as nossas ações num deotropismo incessante. Que não sejam as nobres máximas apenas jóias em uma vitrine, mas combustível pulsante. Que não sirva para exibições elegantes, mas para atitudes ínclitas!

Que a Instituição Espírita não se torne um peripatético palco ou uma universidade fria, mas seja organismo promotor de mudanças sociais, capaz de atender as múltiplas necessidades daqueles que a buscam!

E que o Movimento Espírita não seja apenas um conglomerado de cabeças esclarecidas, mas uma falange de amor!


Artigo do Jornal mundo Espírita - Setembro/2009