Sacrifício por Dineu de Paula

O vocábulo sacrifício possui vários significados, dentre os quais o de renúncia ou privação voluntária por razões religiosas, morais ou práticas.

As religiões costumam tratar do tema e o valorizar, sob os mais diversos enfoques. Por exemplo, a passagem bíblica segundo a qual Deus manda Abraão matar seu filho Isaque (Gênesis, 22). O ato não se consuma, mas o patriarca é elogiado por sua disposição em atender à vontade divina, mesmo à custa do que lhe era mais precioso. Trata-se de uma passagem evidentemente simbólica, que utilizou uma imagem forte para fixar um importante ensino.

Jesus também tratou do assunto, destacando-se a seguinte exortação: ‘Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem, e apresenta a tua oferta’ (Mateus, 5:23-24).

Em uma análise superficial, causa estranheza esse enfoque em atos sacrificiais em favor da divindade. O universo inteiro pertence a Deus, que pode lançar mão de tudo o que nele existe. A única real propriedade de um homem consiste em seus predicados intelectuais e morais, em essência inalienáveis. Todas as condições de que desfruta lhe foram dadas justamente pelo Criador, a fim de que evolua. Assim, parece um contrassenso a ideia de fazer ofertas ao Senhor da Vida.

Ademais, um sacrifício, da espécie que seja, sempre importa alguma dose de dor, física ou moral. Tendo em mente a infinita bondade de Deus, que criou Seus filhos para serem felizes, suscita perplexidade o incentivo à prática de atos da espécie.

Entretanto, como se trata de uma lição que se repete, é porque contém algo de muito importante. É preciso apenas ultrapassar a ideia inicial para entender a essência do ensinamento.

A Doutrina Espírita, em seu aspecto de racionalidade, ajuda a entender a importância dos atos de renúncia e sacrifício, a fim de que, despidos de simbologias, surjam como uma importante conquista evolutiva, que enseja vivências plenas e felizes.

Nessa linha, o Espiritismo ensina que Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, mas destinados à angelitude. Fê-los não imediatamente perfeitos, mas perfectíveis, e lhes assegurou a liberdade de escolher os próprios caminhos e a responsabilidade pelas escolhas feitas.

O progresso é uma lei da vida e ninguém escapa dela. Como um incentivo a que a estrada do progresso seja trilhada, há um mecanismo lógico segundo o qual a conduta reta e equilibrada gera felicidade, ao passo que o descompasso com a lei, revelado pelo cultivo de vícios, engendra dor. A criatura tende a compreender que é de seu interesse evoluir para Deus e que a rebeldia apenas produz sofrimento.

Em O Céu e o Inferno, a partir da análise dos relatos de incontáveis Espíritos, Kardec apresenta o ‘Código Penal da Vida Futura’, um conjunto de princípios sobre o que torna os Espíritos felizes ou infelizes. Segundo esse código, ‘a completa felicidade prende-se à perfeição, isto é, à purificação completa do Espírito. Toda imperfeição é, por sua vez, causa de sofrimento e de privação de gozo, do mesmo modo que toda perfeição adquirida é fonte de gozo e atenuante de sofrimentos’. (obra citada, 1ª parte, capítulo VII, item 2).

Assim, todo vício ou imperfeição necessariamente produz dor. Um singelo exemplo ajuda a entender a assertiva: o homem ciumento, não importa a dignidade de sua companheira, está sempre atormentado. Ele procura sinais externos que confirmem o seu tormento íntimo e nunca está tranquilo. Se não tivesse essa fissura moral, viveria muito mais feliz.

Segundo a Espiritualidade Superior, o egoísmo é a raiz de todos os vícios. Na resposta dada à questão nº 913 de O Livro dos Espíritos, ela afirma: ‘Por mais que lhes deis combate (aos vícios), não chegareis a extirpá-los, enquanto não atacardes o mal pela raiz, enquanto não lhe houverdes destruído a causa. Tendam, pois, todos os esforços para esse efeito, porquanto aí é que está a verdadeira chaga da sociedade’.

Então, todos os vícios e paixões negativas, que produzem dores e misérias, originam-se do egoísmo. É do mais alto interesse das criaturas destruí-lo em si mesmas.

Em A Gênese, ao dissertar sobre o bem e o mal, no capítulo III, Kardec assevera que todas as paixões e vícios encontram sua gênese no instinto de conservação. Tal instinto possui uma finalidade providencial, consistente em assegurar que o ser viva o maior tempo possível, a fim de evoluir o máximo na oportunidade física de que desfruta. Ele não é um fim em si mesmo, mas um instrumento do progresso. Ocorre que, quando exacerbado, ou seja, levado além de seus naturais limites, engendra o egoísmo, que faz nascer todos os demais vícios.

É natural e bom que o ser humano, à semelhança de todos os outros seres vivos, cuide de si, procure viver bastante e bem. O problema é quando esse cuidado pessoal extrapola o razoável, em detrimento dos direitos alheios.

Todo instinto é positivo em sua essência, mas, no decorrer do processo evolutivo, deve gradualmente ceder espaço ao sentimento e à razão.

Atente-se que, quando exacerbado, esse instinto, voltado a livrar o ser de experiências dolorosas e desgastantes, acaba por promover resultado contrário. Engendra o egoísmo, pai de todos os problemas e desgraças morais do homem e da coletividade.

É preciso, pois, identificar um modo de combater o excesso do instinto de conservação, degenerado em egoísmo.

Na questão nº 917 de O Livro dos Espíritos, consta que o egoísmo é a imperfeição humana mais difícil de desenraizar porque deriva da influência da matéria. E que ele se enfraquece à medida que a vida moral vai preponderando sobre a vida material.

Já na questão nº 912 da mesma obra, afirma-se que o meio mais eficiente de combater o predomínio da natureza corpórea consiste em ‘praticar a abnegação’. Nessa mesma linha, na questão nº 893 do LE, a Espiritualidade Superior anota que ‘a sublimidade da virtude (…) está no sacrifício do interesse pessoal, pelo bem do próximo, sem pensamento oculto’. Ou seja, na abnegação, que nada mais é do que o sacrifício voluntário dos próprios desejos e posições em nome de um imperativo ético.

Tem-se, pois, uma razão lógica para o incentivo à prática de atos de sacrifício. Embora possa parecer contraditório, quando consegue abrir mão de seus interesses, em atitude sacrificial, o homem adquire condições íntimas de atingir um estado superior de felicidade. Ele se liberta de necessidades que o escravizam a vivências frustrantes e dolorosas.

Sumariando, o instinto de conservação, quando exacerbado, origina o egoísmo, que dá causa a todos os vícios, os quais, por sua vez, geram dores e misérias para o homem e a sociedade. O único modo de vencer o egoísmo é combater a influência da matéria, enfraquecer mesmo o instinto de conservação, mediante a prática da abnegação.

Consoante o ensino da Espiritualidade Superior, toda virtude é meritória, pois implica resistência voluntária ao arrastamento dos maus pendores, mas a abnegação é a mais sublime de todas as qualidades humanas.

Ao incorporar essa habilidade de renunciar, o Espírito atinge a maturidade do senso moral e está apto a importantes voos evolutivos.

Justamente por isso, não está em pauta a autoflagelação, a aplicação de maus-tratos ao corpo, sob qualquer enfoque. Não se cuida de uma renúncia estéril, de quem imagina que Deus se alegra com o sofrer de Seus filhos. Ao contrário, trata-se de um instrumento de evolução espiritual, pela capacidade de doar-se em favor do semelhante, com esquecimento do próprio interesse.

Afinado com esse ensino, Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XVII, apresenta as características do homem de bem. Enumera uma série de virtudes, que beiram a sublimidade, para concluir que muitas outras há, mas que a prática das indicadas necessariamente conduz à conquista de todas as demais. O quadro pode parecer desalentador para quem se reconhece muito aquém das qualidades apresentadas. Contudo, nessa dissertação é possível identificar uma chave para a conquista desse estado ideal. É quando o Codificador assevera que o homem de bem ‘sacrifica sempre seus interesses à justiça’.

Como se vê, o sacrifício não é por bobagens, mas pelo ideal de justiça. Evidentemente, não se trata de uma concepção infantil de justiça. Afinal, uma criança tende a considerar justo tudo o que a beneficia e injusto o que a prejudica.

Para conquistar a maturidade espiritual, que afasta dores desnecessárias e viabiliza o real progresso, um homem precisa aprender a identificar a justiça do que o prejudica e a injustiça do que o beneficia, assim como a abrir mão de vantagens indevidas. Se ele pode fazer algo de bom, então deve fazer.

Para isso, urge prestar atenção nos argumentos dos outros, na situação deles, e se dispor a algum sacrifício pelo bem-estar do outro, da coletividade. Inclusive o sacrifício das próprias opiniões, a bem da tranquilidade dos ambientes em que transita.

Essa habilidade de renúncia constitui a chave do progresso moral e da vida social harmônica e por isso vem sendo incentivada desde a antiguidade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BÍBLIA. Português. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.

2. KARDEC, Allan. Tradução de Guillon Ribeiro. A Gênese. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

3. KARDEC, Allan. Tradução de Guillon Ribeiro. O Céu e o Inferno. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

4. KARDEC, Allan. Tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 3. ed. especial. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

5. KARDEC, Allan. Tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Novembro/2012