Amizade por Rogério Coelho

Nilson adotou a humildade operosa como bússola para a sua vida.

Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a vida pelos seus amigos. Jesus (Jo. 15:13)

Preciosa conquista, a amizade é o pólen do amor, a medrar onde quer que as flores do sentimento desabrocham na árvore generosa da dignidade humana. [1]

Os sentimentos fraternos foram realçados pelo Apóstolo dos Gentios aos Tessalonicenses[2] como pré-condição aos trabalhos na Seara do Cristo ao afirmar: Quanto à caridade fraternal, não necessitaria lhes escrever, visto que estão todos instruídos por Deus de que devem amar-se uns aos outros.

Emmanuel[3] lança um questionamento direto: Que esperam os companheiros esclarecidos para serem efetivamente irmãos uns dos outros?

Ele mesmo, mui austeramente responde à própria indagação:  Muita gente se esquece de que a solidariedade legítima escasseia nos ambientes onde é reduzido o espírito de serviço e onde sobra a preocupação de criticar. Instituições notáveis são conduzidas à perturbação e ao extermínio, em vista da ausência do auxílio mútuo, no terreno da compreensão, do trabalho e da boa-vontade.

Falta de assistência? – Não!

Toda obra honesta e generosa repercute nos Planos Mais Altos conquistando cooperadores abnegados.

Quando se verifique a invasão da desarmonia nos Institutos do Bem, que os agentes humanos acusem a si mesmos pela defecção nos compromissos assumidos ou pela indiferença no ato de servir. E que ninguém peça ao Céu determinadas receitas de fraternidade, porque a fórmula sagrada imutável permanece conosco no sempiterno: “Amai-vos uns aos outros.”

Por tão bem compreender o valor desse postulado o Apóstolo Paulo escreveu[4]: Permaneça o amor fraternal.

Emmanuel[5], fiel discípulo do Doutor Tarsense, abrindo o leque de nosso entendimento, cavoucando as leiras evangélicas e extraindo de suas entranhas as gemas preciosas com o instrumental de sua irreprochável lucidez, esclarece: Este apelo evangélico de Paulo, reveste-se de imensa importância.

As afeições familiares, os laços consanguineos e, as simpatias naturais podem ser manifestações muito santas da Alma quando a criatura as eleva ao altar do sentimento superior, contudo, é razoável que o Espírito não venha a cair sob o peso das inclinações próprias.

Por demasia de cuidados, inúmeros pais prejudicam os filhos.

Por excesso de preocupações, muitos cônjuges descem às cavernas do desespero, defrontados pelos insaciáveis monstros do egoísmo e ciúme que lhes aniquilam a felicidade.

Em razão da invigilância, belas amizades terminam em abismos de sombras.

 O equilíbrio é a posição ideal.

 A fraternidade pura é o mais sublime dos sistemas de relações interpessoais.

O homem que se sente filho de Deus e sincero irmão das criaturas não é vítima dos fantasmas do despeito, da inveja, da ambição e da desconfiança. Os que se amam fraternalmente alegram-se com o júbilo dos companheiros; sentem-se felizes com a ventura que visita os semelhantes.

As afeições violentas, comumente conhecidas na Terra, passam, vulcânicas e inúteis.

 Na teia das reencarnações, os títulos afetivos modificam-se constantemente. É que o amor fraternal sublime e puro, representando o objetivo supremo do esforço de compreensão, é luz imperecível que sobreviverá no caminho eterno.

Pela Humanidade, Jesus fez tudo o que era possível em renúncia e dedicação… É impressionante a Sua imensa afeição pelas criaturas. Seu exemplo, seguido através dos séculos por abnegados discípulos, é sementeira de luz ensejando o vicejar da vera fraternidade.

Atentemos agora para o depoimento do médium fluminense J. Raul Teixeira, inserto no livro do Dr. Miguel de Jesus Sardano, intitulado: Nas Pegadas do Nazareno:

(…) a História registra, com observações curiosas e importantes, uma realidade que não se pode esquecer ou menosprezar. Todos aqueles que se destacaram, singrando mares bravios e ignotos, ou aqueles que desbravaram selvas, ou se tornaram heróis por vários motivos que os consagraram, e tantos que se santificaram no bem, não o lograram sem a participação de outra alma dedicada que os apoiou, sustentou, auxiliou…

Temos desde Sancho Panza, no famoso romance de Cervantes, personificando o bom-senso realista ao lado do extremo idealismo de Dom Quixote, até a excelente atuação de Anne Sullivan, mestra devotada da menina Hellen Keller que, aos dois anos de idade, ficara cega, surda e muda, transformando-se com a assistência de Sullivan, a “fazedora de milagre”, na expressão cinematográfica de Arthur Penn, numa mulher detentora de diversos títulos universitários, conhecida e festejada em todo o mundo.

Conhecemos dedicações como a de Frei Leão para com o “paizinho seráfico”, Francisco de Assis, até o reforço tranquilo e sem alarde de Amélie Boudet, a doce Gaby, ao gigantesco trabalho de seu esposo Allan Kardec.

Ao lado de Divaldo Pereira Franco, na condição de amigo, irmão, guardião e apoio, ergue-se uma figura que encanta pela simplicidade e amor ao trabalho, que sensibiliza por seu devotamento à Obra que, juntos, fundaram e por sua incansável versatilidade, atuando nos serviços de pedreiro ou gráfico, de carpinteiro ou eletricista, de mecânico de automóveis ou de pintor, unindo tudo isso à sua condição proeminente de pregador e doutrinador de largos recursos: Nilson de Souza Pereira.

Se não é fácil ser grande durante mais de meio século, diante de câmeras, de jornalistas, luzes, aplausos e pedradas públicos, igualmente não é simples o trabalho de firmar os alicerces, que ninguém vê, quando tantos anseiam por aparecer, por projetar-se na claridade dos outros. Não é simples, também, o empenho de aprender a ouvir atencioso, quando se sabe também falar; não é banal a grandeza de renunciar à prática mediúnica na condição de médium ostensivo, para dedicar-se ao diálogo instrutivo e emocionante com aqueles tidos como mortos, mas que cantam ou choram, bendizem ou blasfemam no Além. Pois bem, o nosso Nilson escolheu tal posição adotando a humildade operosa como bússola para a sua vida.

(…)ao levantarmos a voz para louvar a Deus pelos decênios em que Divaldo espalha luz pelas plagas distintas do mundo, não podemos silenciar quanto a esse Apóstolo silencioso que lhe prepara o suporte, mantendo na retaguarda o Grupo de trabalhadores em ação, em prece pelo amigo em contínuas viagens.

Quando conhecemos de perto a extensão e a importância da Obra de Divaldo em Salvador; quando percebemos o papel de Nilson no seu plano de atividades, já não conseguimos pensar nela sem os dois que, embora distintos, se completam, nesse compromisso fulgurante com Jesus, que se espraia por dezenas de anos, nas terras do Brasil, vitorioso e abençoado.

Ninguém tem maior amor do que este:  de dar alguém a vida pelos seus amigos.       

 

 


[1] - FRANCO, Divaldo Pereira.  Sublime Expiação. Rio [de Janeiro]: FEB, Livro 2º – cap. I.

[2] – I Tessalonicenses, 4:9.

[3] – XAVIER, Francisco Cândido. Pão Nosso.  17.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1996, cap. 10.

[4] – Hebreus, 13:1.

[5] – XAVIER, Francisco Cândido. Pão Nosso.  17.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1996, cap. 141.


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Fev/2014