Primavera Europeia de 1857 por Antônio Moris Cury

O mês de abril é deveras importante para o meio espírita, uma vez que nele, em Paris, França, em 18 de abril de 1857, sábado de primavera na Europa, foi lançado O Livro dos Espíritos, a obra fundamental do Espiritismo. É claro que o ensinamento, a orientação, o esclarecimento e o consolo nele contidos servem de firme farol para toda a Humanidade pelas extraordinárias luzes que dali se propagam, constituindo-se em verdadeiro roteiro de vida, independentemente da crença que se professe.

Essa obra é de autoria dos Espíritos Superiores, sob o comando do Espírito Verdade, daí o seu nome O Livro dos Espíritos, sendo que o eminente professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail se encarregou de compilar, separar, classificar, distribuir as matérias, sistematizando-as, cuidando, enfim, da organização geral e, de modo particularmente especial, de sua redação, tarefa para a qual estava bastante preparado dada a sua larga experiência como educador, com inúmeros livros publicados, notadamente os que versavam sobre educação, muitos dos quais adotados pela Universidade de Paris.

Hippolyte Rivail propositadamente adotou o pseudônimo de Allan Kardec, nome que tivera em recuada existência pretérita, a fim de que a obra fosse comprada por seu conteúdo, e não por quem a assinava, uma vez que ele era muitíssimo conhecido e reconhecido como professor e autor de livros sobre temas diversos. Também teve considerável peso, na adoção do pseudônimo, o fato de que o livro foi ditado pelos Espíritos Superiores, não sendo obra dele, professor Rivail, nada obstante tenha nela lançado inúmeros comentários e observações pessoais. É importante insistir: o pseudônimo foi utilizado exatamente para afastar qualquer influência pessoal em sua compra, o que fatalmente ocorreria se ali constasse o seu verdadeiro nome, diante do enorme prestígio de que desfrutava nos meios intelectuais franceses e europeus. Como se não fosse suficiente, ético e íntegro a toda prova, sempre considerou que o livro era deles, os Espíritos, e não dele, Hippolyte Rivail, que, cabe enfatizar, sempre agiu com seriedade e sem rejeições apriorísticas, características do verdadeiro cientista. Por essas breves observações já se pode avaliar o que essa obra representa.

De 1855 a 1869, quando desencarnou em 31 de março, o ilustre e ilustrado professor Rivail dedicou sua existência ao Espiritismo, valendo-se dos parcos recursos disponíveis no século XIX, quando foram publicadas as obras básicas e publicados outros tantos e inúmeros textos, de que nos valemos até hoje, por inteiro, para alcançar o conhecimento, consolidá-lo e aprofundá-lo, cada vez mais, e sempre, tal a impressionante atualidade de que se revestem.

Naquela época, relembrando que O Livro dos Espíritos, a obra fundamental do Espiritismo, veio a lume no dia 18 de abril de 1857, nem mesmo a luz elétrica, tal como hoje a conhecemos, havia sido descoberta, uma vez que Thomas Alva Edison produziu a primeira lâmpada incandescente em outubro de 1879, ou seja, cerca de 10 anos após a desencarnação de Allan Kardec. Logo, não é difícil deduzir que, para escrever em casa, à noite, que era onde e quando geralmente escrevia, Kardec se utilizava de lampião ou de lamparina, com as naturais e acentuadas deficiências desse tipo de iluminação.

Além da inexistência da luz elétrica, da energia elétrica, que atualmente facilita a vida de todos nós, em variados campos, porquanto gera não somente luz, mas também força, vale destacar que Allan Kardec escrevia com bico de pena, visto que, como é evidente, não havia nem mesmo a simples e eficiente caneta esferográfica.

Foi, sem qualquer dúvida, um trabalho gigantesco, a despeito das grandes e inúmeras dificuldades daquela época. Tendo iniciado a sua atividade espírita com cerca de 50 anos, trabalhou árdua e ininterruptamente até o advento de sua desencarnação, aos 64 anos de idade. Entretanto, todo esse esforço, todo esse empenho, todo esse comportamento ético e íntegro não foram em vão. Milhares de pessoas em toda a Terra foram e são permanentemente beneficiadas pelos ensinos cristãos à luz da veneranda Doutrina Espírita, redigida de maneira clara e em linguagem acessível que a todos alcança. Pelos frutos é que se verifica a qualidade da árvore, já o afirmou com precisão o Espírito Verdade (Obras Póstumas, 34ª edição FEB, 2004, página 282).

Lendo e estudando O Livro dos Espíritos concluiremos com facilidade de onde viemos, o que estamos fazendo aqui na Terra e para onde iremos. Isto por si é mais que suficiente para justificar o mergulho em sua leitura, em seu estudo, em seus conteúdos e nas reflexões nele contidas sobre os princípios da Doutrina Espírita a respeito da imortalidade da alma, da natureza dos Espíritos e de suas relações com os homens, das leis morais, da vida presente, da vida futura e do porvir da Humanidade.

Com efeito, a partir do entendimento e da convicção que dele decorrem de forma lógica e racional, passamos a perceber com clareza que todos, sem qualquer exceção, partimos do mesmo ponto inicial, que temos as mesmas oportunidades de crescimento, progresso e evolução, que depois de criados por Deus, nosso Pai Celestial, causa primária ou primeira de todas as coisas e a inteligência suprema do Universo, passamos a ser imortais, isto é, morre o corpo físico, sim, que se decompõe e se transforma, mas o Espírito, o ser pensante da Criação, o ser permanente, continua vivo, vivíssimo, atravessa a aduana do túmulo e retorna ao Mundo Espiritual, a vida verdadeira, de onde proviemos e para onde todos regressaremos, razão pela qual se pode dizer, em síntese e em outras palavras, que o Espírito sai do corpo, mas não sai da Vida.

Por outro ângulo, as desigualdades de toda ordem e a gritante e só aparente injustiça que pulula por toda parte ficarão tranquilamente resolvidas, com o uso da chave denominada reencarnação, que por si extirpa qualquer dúvida e recoloca as pessoas, os atos, os fatos e as coisas em seus devidos lugares, demonstrando de maneira clara que não há seres privilegiados, que não há favores, que não há milagres, que não há sobrenatural, que somos herdeiros de nós mesmos e que todos receberemos sempre e somente, de conformidade com as nossas obras e não de conformidade com o nosso discurso.

A leitura e, sobretudo, o estudo de O Livro dos Espíritos mostrará direta ou indiretamente qual o nosso papel nesse contexto, de forma a elucidar, orientando, que estamos no planeta Terra, por exemplo, para aprender, muito aprender, a começar pelo aprendizado da fraternidade, que indica que devemos amar ao próximo como a nós mesmos, fazendo a ele o que gostaríamos que ele nos fizesse, com o que e como decorrência, estaremos amando a Deus sobre todas as coisas, tal como nos ensinou Jesus, o Cristo, há cerca de dois mil anos, na célebre, sintética e perfeita sentença que emitiu, assegurando-nos que o Amor é a lei maior da Vida, que nos cabe observar e cumprir, sempre.

Por fim, é importante relembrar a frase inscrita no túmulo de Allan Kardec no Cemitério Père Lachaise em Paris, França: Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei, sintetizando, assim, a concepção evolucionista do Espiritismo.

Por isso, ao aceitar o convite para a leitura de O Livro dos Espíritos, cedo concluiremos que se trata de obra absolutamente indispensável e riquíssima, que merece ser estudada permanentemente e que é portadora de inestimável contributo para a nossa felicidade.


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Abr/2012