Até quando?

Com as facilidades que a tecnologia trouxe aos meios de comunicação, vivemos numa aldeia global, onde o que acontece num país distante, parece estar ocorrendo no quintal de nossa casa.

Com isso, as alegrias e as tristezas, a tranquilidade e a agonia, as conquistas e as derrotas de uns, ato contínuo são sabidas e sentidas pelos demais, ao derredor do mundo.

Os franceses e o mundo vivemos o momento de indignação, consternação e medo, com a chacina no jornal Charlie Hebdo (7/1/2015) e no mercado Kosher (9/1/2015), cuja sucessão de atos criminosos resultaram em vinte mortes, nas primeiras horas. Estado Islâmico e Al Qaeda reivindicam a autoria dos ataques.

Há muito tempo se repete nos noticiários as atrocidades do grupo radical islâmico Boko Haram, que matou mais de duas mil pessoas em Baga, no noroeste da Nigéria, em sua maioria, crianças, mulheres e idosos, que não puderam correr rápido o suficiente, durante os ataques com granadas e fuzis.

O mesmo acontece com o chamado Estado Islâmico, que ocupa grande faixa de terra no entremeio Iraque/Síria, e se faz conhecido pelas decapitações públicas, crucificação e outras violências.

Quase uma presença unânime nos atentados contra a vida, vemos a Al Qaeda, com células de terror espalhadas pelo mundo.

E Jesus disse: Ó geração incrédula e perversa! até quando estarei eu convosco, e até quando vos sofrerei?(Mateus, 17:17)

Até quando?

Atribui-se a Martin Luther King uma frase de valor inquestionável: O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.

Edmund Burke disse: Para que o mal triunfe basta que os homens de bem se calem.

Em O livro dos Espíritos, na questão 642, aprendemos que somos responsáveis não só pelo mal que fazemos, também pelo mal que decorra do bem que deixemos de fazer. Ou seja, a nossa omissão nos faz coresponsáveis pelas consequências que dela advenham.

É cantado em prosa e verso o nosso desejo de um mundo melhor.

Há poucos dias desejávamos, nas mensagens de final e início de ano, um 2015 feliz, próspero e recheado de boas realizações.

Mas, de fato, qual nosso contributo para melhorias pessoais, familiares, sociais? Somos proativos ou omissos?

Com muita frequência nós, no geral, e os espíritas, em particular, ouvimos o chamado para o trabalho renovador do pensar e do agir, em prol de um novo tempo, onde impere a segurança, o equilíbrio, o bem-estar.

O Espírito Bezerra de Menezes nos conclama:[1]

Estais convidados para a Nova Era e não é lícito que estacioneis, custe o preço que vos seja exigido, sejam quais forem as condições que a misericórdia do Senhor vos imponha…

[...]

Filhos! Não há outra alternativa, nem outra recomendação, exceto a velha regra áurea do amor em todas e quaisquer circunstâncias.

Ou seja, combater o mal com medidas do bem.

O mesmo alerta, pelas palavras de Lins de Vasconcellos, Espírito:2

Mais do que nunca estamos sendo convidados a um trabalho positivo de construção da nova Humanidade. Que as nossas atitudes não venham comprometer o programa superior, que no momento repousa em nossas débeis e agitadas mãos.

Conforme considerações do Espírito Camilo3, o que se vê é um processo de pouca vontade para empreender mudanças em si mesmo.

Muitos dão preferência ao uso de expressões que bem indicam a sua pouca disposição de transformação superior: “não há nada demais nisso”, “todo mundo faz assim”, “todo mundo usa isso”, enquanto outros preferem: “não sou de ferro”, “sou humano ainda”, “não sou fanático”. Entretanto, surgem os que já se admitem como são, fazendo do seu estado um estado intocável que alimentam afirmando: “comigo é assim…”, “quem quiser gostar de mim tem que ser assim”, “sou muito bom, mas não me pise no calo…“, e seguem desfilando as suas “máximas”, mantendo o processo pernicioso de suas renitentes perturbações indefinidamente.

Enquanto não empreendermos verdadeira e amadurecida reforma íntima nos valores do caráter, dando espaço de predominância à fraternidade, à solidariedade, à tolerância, à caridade e a Deus, estaremos fadados a ver as discórdias entre amigos, nos lares e entre as nações. Continuará sendo comum pessoas desejando se sobrepor sobre o próximo; povos buscando dominar outros povos, utilizando-se de imperceptíveis meios como os econômicos e diplomáticos, ou pelo alardeado uso das armas e dos atentados à vida. Enquanto as reformas morais não vierem, vamos coexistir com pessoas e grupos extremistas que tentam se impor, de um lado e de outro, numa constante cadeia de ações e reações.

Grande é, ainda, a perversidade do homem, bem o sabemos. Grandes têm sido os adiantamentos e avanços intelectuais e morais, precisamos reconhecer. Mas, o grande impulsionador do progresso tem sido o mal quando chega ao excesso, e somente depois daí é que se faz compreensível a necessidade do bem e das reformas, como visto na questão 784, de O Livro dos Espíritos.

Em pleno século XXI, será que ainda precisamos perder alguma coisa para somente então valorizá-la?

Até quando vamos nos permitir essa prejudicial atitude de nos mantermos de braços cruzados?

Há um provérbio chinês, que diz: Todos os dias penteamos e arrumamos os cabelos. Por que não o coração?

1 FRANCO, Divaldo Pereira.Compromissos iluminativos. Pelo Espírito Bezerra de Menezes. Salvador:LEAL.cap. 24.

2_______. Sementeira da fraternidade. Por diversos Espíritos. Salvador: LEAL. cap. 19.

3TEIXEIRA, J. Raul. Correnteza de luz. Pelo Espírito Camilo. Niterói: FRÁTER. cap.23.

 


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Fev/2015