Gozos torturantes por Rogério Coelho

Não menosprezes a importância de uma vivência escorreita, legitimamente cristã, no teu cotidiano, pois esse estilo enobrecido de ser falará aos que te rodeiam sobre  as  excelências dos princípios que te norteiam, na condição de tua filosofia de vida.

Hans Swigg[1]

A expressão gozos torturantes pode parecer paradoxal mas, na verdade, para o observador atento a questão se reveste de extenso campo para análises mais detalhadas e profundas que nos levam a maiores e importantes descortinos…

Na singular série André Luiz, que se constitui o vade-mécum pós-Codificação Espírita dos mais expressivos e indispensável à sedimentação do conhecimento dos mecanismos da vida, nos seus dois planos, veiculada pela abençoada mediunidade de Chico Xavier, o autor espiritual alerta-nos, entre inúmeras outras coisas, para a escorregadia questão dos prazeres horizontais e transitórios, sintetizando: Observa se a tua alegria de hoje será também alegria amanhã.

Allan Kardec incluiu em O Evangelho Segundo o Espiritismo uma formosa página de Delphine de Girardin, perfeitamente harmonizada com o assunto em tela e, numa concatenação de ideias aparentemente paradoxais, propõe[2]:

 

[A Falsa Desgraça ]

Toda a gente fala da desgraça, toda gente já a sentiu e julga conhecer-lhe o caráter múltiplo. Venho eu dizer-vos que quase toda a gente se engana e que a desgraça real não é, absolutamente, o que os homens, isto é, os desgraçados, o supõem. Eles a veem na miséria, no fogão sem lume, no credor que ameaça, no berço de que o anjo sorridente desapareceu, nas lágrimas, no féretro que se acompanha de cabeça descoberta e com o coração despedaçado, na angústia da traição, na desnudação do orgulho que desejara envolver-se em púrpura e mal oculta a sua nudez sob os andrajos da vaidade. A tudo isso e a muitas coisas mais se dá o nome de desgraça, na linguagem humana.  Sim, é desgraça para os que só veem o presente.

 

A Desgraça Real

(…) a verdadeira desgraça, porém, está nas consequências de um fato, mais do que no próprio fato.(…)

Para julgarmos de qualquer coisa, precisamos ver-lhe as consequências.   Assim, para bem apreciarmos o que, em realidade, é ditoso ou inditoso para o homem, precisamos transportar-nos para além desta vida, porque é lá que as consequências se fazem sentir. Ora, tudo o que se chama infelicidade, segundo as acanhadas vistas humanas, cessa com a vida corporal e encontra a sua compensação na vida futura.

Vou revelar-vos a infelicidade sob uma nova forma, sob a forma bela e florida que acolheis e desejais com todas as veras de vossas almas iludidas. A infelicidade é a alegria, é o prazer, é o tumulto, é a vã agitação, é a satisfação louca da vaidade, que fazem calar a consciência, que comprimem a ação do pensamento,  que  atordoam  o homem com relação ao seu futuro. A infelicidade é o ópio do esquecimento que ardentemente procurais conseguir.

Esperai, vós que chorais! Tremei, vós que rides, pois que o vosso corpo está satisfeito! A Deus não se engana; não se foge ao destino; e as provações, credoras mais impiedosas do que a matilha que a miséria desencadeia, vos espreitam o repouso ilusório para vos imergir de súbito na agonia da verdadeira infelicidade, daquela que surpreende a alma amolentada pela indiferença e pelo egoísmo.

Que, pois, o Espiritismo vos esclareça e recoloque, para vós, sob verdadeiros prismas, a verdade e o erro, tão singularmente deformados pela vossa cegueira!

Atentemos para as informações de Hans Swigg[3]:(…) para participar dos programas sombrios, que se desgovernam no entrechoque de energias deletérias dos dias presentes, basta relaxar a vigilância e duvidar da ação dos Prepostos da Divindade sobre as atividades planetárias.

Para atender as bocas das trevas, não faltam almas indisciplinadas na emoção, de temperamento rebelde ou criminoso, de caracteres viciosos, invigilantes, desregrados, vingativos, encontrados com facilidade pelas avenidas largas da experiência carnal.

Contudo, para a propagação dos propósitos celestiais, apresentam-se aqueles amadurecidos nos sofrimentos, desenvolvidos no senso moral, voluntários do trabalho do bem desinteressado, ordeiros e disciplinados, sempre dispostos a se tornarem instrumentos ativos nas mãos de Deus, que não são muitos, na realidade planetária.

Para ombrear com os Mensageiros da Luz, cooperando com os programas do Cristo, cujas atividades geram bênçãos de múltiplas feições para todos, é preciso adaptar-se às profundas meditações, à oração sincera, aos esforços por transformar-se para o bem, corajosamente.

Hans Swigg completa seu ensinamento revelando[4]: Todas as oportunidades concedidas pelo Criador, através do tempo, representam ensejo ditoso de reconstrução própria, em nível geral, nos caminhos da vida.

 

Conhecimento, Amor e Serviço: Sendas da Ventura

Converter a ignorância em conhecimento, transformar a indigência em cidadania, fazer com que o medo se torne coragem, que a inverdade assimile as virtudes da verdade e que a escuridão se transforme em claridade, são elementos que não podemos desconsiderar na esfera da existência humana.

Ricas são as almas que procuram servir a Jesus. Iluminadas por essa disposição participam do trabalho ingente de cada dia, cooperando na renovação psíquica do mundo, ainda que a sua cota de oferecimento pareça insignificante.

Venturosas são as almas que avançam no roteiro da reestruturação individual.   Fortalecidas por esse ideal, atuam positivamente, na construção de um planeta melhor.(…)

Vemos assim, pelas abençoadas lentes da Doutrina Espírita que desgraça e felicidade são termos da equação da vida e o ângulo de observação que nos oferece é bem outro, isto é, aquele que nos permite identificar, realmente, o que é desgraça e dita.  Saibamos, pois, discernir com sabedoria.  Quem sabe se o que hoje nos parece desgraça, amanhã será ufania? Da mesma forma, atentemos cuidadosamente, com André Luiz, se a nossa alegria de hoje será alegria amanhã também.

 

 


[1] – TEIXEIRA, Raul.  Em serviço mediúnico.  Niterói: FRÁTER, 1996, cap. 4.

[2] – KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio [de Janeiro]: FEB, 2009, cap. V, item 24.

[3] -TEIXEIRA, Raul.  Em serviço mediúnico.  Niterói: Fráter, 1996, cap. 6.

[4]- TEIXEIRA, Raul.  Em serviço mediúnico.  Niterói: Fráter,  1996,  cap.7 e 8.


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Fev/2015