Semear é livre por Antônio Moris Cury

O artigo intitulado Problemas, dificuldades, decepções, publicado no jornal Mundo Espírita do mês de março de 2015, terminou assim: Considerando que temos consolidada a preciosa e incontestável informação de que a semeadura é livre, mas a colheita obrigatória, procuremos plantar o Bem, em qualquer circunstância e em qualquer situação, por maiores e mais complexos que sejam nossos problemas e dificuldades, que seguramente colheremos o Bem. Sempre!

Com efeito, é interessante notar como nós, de uma forma geral, conhecemos verdades milenares, mais que consolidadas por sua constante repetição, mas, nada obstante, não as colocamos em prática em nosso dia a dia, em nosso próprio favor (e tantas vezes em favor de terceiros, direta ou indiretamente).

O ser humano encarnado na Terra é dotado de livre-arbítrio, que consiste na liberdade de decidir, de fazer escolhas, de conformidade com o seu discernimento. Um estudo realizado, em caráter não oficial, por um grupo de especialistas em comportamento informa que cada pessoa toma cerca de mil decisões por dia. Pode, à primeira vista, parecer um exagero, mas, se prestarmos bastante atenção, é provável que o número seja este mesmo. Um exemplo trivial, que entraria neste cálculo, seria a decisão de ir por uma rua, e não por outra, para o trabalho, para a escola, para a repartição pública, para o banco.

Sendo livres para decidir, podemos escolher as sementes que vamos semear. E não apenas as sementes utilizadas na agricultura, da maior importância, por sinal. Emmanuel, Espírito, através da psicografia do eminente médium Francisco Cândido Xavier, tratando de homens inquietos e insaciados que ainda não conseguiram compreender a semente [que é o título da mensagem], registra que eles Não souberam aprender com a semente minúscula que lhes dá trigo ao pão de cada dia e lhes garante a vida, em todas as regiões de luta planetária. Saber começar constitui serviço muito importante. No esforço redentor, é indispensável que não se percam de vista as possibilidades pequeninas: um gesto, uma palestra, uma hora, uma frase, podem representar sementes gloriosas para edificações imortais. Imprescindível, pois, jamais desprezá-las. (Pão Nosso, cap. 7)

De todo conveniente, portanto, que escolhamos e plantemos as boas sementes, que estão ao nosso dispor e que independem de crença, de cor, de etnia, de condição social, financeira ou cultural. As sementes estão em nossas mãos. A decisão é nossa. Que sementes são essas, afinal?

Inúmeras vezes, uma palavra de encorajamento, de estímulo, de esperança, pode representar significativa mudança na existência atual de quem a recebe.

Do mesmo modo, ouvir com atenção e interesse a quem esteja com medo, em dúvida, deprimido, angustiado, aflito ou até mesmo desesperado, pode representar, por si, valiosa ajuda para a superação de tais dificuldades.

Os ensinos cristãos, pela excelente ótica da veneranda Doutrina Espírita, de há muito advertem que a semeadura é livre, mas a colheita obrigatória. Ou seja, cada um colherá exatamente aquilo que plantou, que semeou [nesta linha, até mesmo a sabedoria popular, que é fruto de longa e aguda observação do cotidiano, cunhou a expressão: quem semeia ventos, colhe tempestades – dentre tantas outras sobre o mesmo assunto].

Quem trata bem a todas as pessoas (aí incluídas as crianças) e as respeita devidamente, só pode receber igual tratamento. Não há quem não goste de ser respeitado. Importante destacar também que tratar bem as pessoas e respeitá-las não custa nada. E, como se não fosse suficiente, só fazem bem, a nós e aos outros.

Quando passarmos a utilizar em nosso dia a dia, com a mesma naturalidade com que respiramos, as boas sementes da paciência [a ciência da paz], da tolerância, da resignação, da compreensão, do perdão, da bondade, do amor [a Lei maior da Vida], entre tantas outras, sem sombra de dúvida seremos melhores e mais felizes desde logo, além de significar que estaremos fazendo adequado e bom uso dos ensinamentos contidos no Evangelho, visto que A parábola do semeador exprime perfeitamente os matizes existentes na maneira de serem utilizados os ensinos do Evangelho. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII, item 6)

Daí a perfeição do ensino máximo de Jesus, o Cristo: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo [em outras palavras, amar ao próximo como a si mesmo é fazer ao outro o que gostaríamos que ele nos fizesse], com o qual resumiu toda a lei e os profetas.

Procuremos, pois, em nosso favor e em favor da Humanidade, plantar o Bem, praticar o Bem, onde quer que nos encontremos, seja qual for a circunstância, seja qual for a situação que, com certeza, colheremos o Bem, porquanto, como bem o sabemos, a semeadura é livre, mas a colheita obrigatória.


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Abril de 2015