O evangelho como código divino por José Passini

O Espiritismo, ao trazer de volta o Evangelho de Jesus na sua simplicidade e alcance originais, no-lo mostra como um vade mecum para a vida, e não como se ensinava até então: um livro sagrado para ser lido no interior dos templos, braços cruzados sobre o peito, em atitude de reverência. Pelo contrário, é o livro-guia de todas as horas. Seus ensinamentos são para a vida diária e não apenas para os momentos de culto. Constitui o Evangelho de Jesus um verdadeiro código de evolução para a Humanidade, um manual para a angelização do homem.

Jesus, o Mestre mais perfeito que a Terra conheceu, por basear Seus ensinamentos na pedagogia do exemplo, não ficava recolhido em santuários, em mosteiros, em atitude contemplativa. Não há um só ensinamento dEle que tenha ficado sem a Sua exemplificação pessoal na vida prática. Prevendo a tendência muito humana da criação de grupos religiosos isolados, onde viveriam apartados do convívio social aqueles que se quisessem santificar, deixou recomendação, registrada por dois evangelistas: Eis que vos mando como ovelhas no meio de lobos. (Mt, 10:16 e Lc, 10:3)

Allan Kardec demonstra isso à saciedade ao elaborar a Parte Terceira de O Livro dos Espíritos, intitulando-a Das Leis Morais, onde publica os diálogos que teve com os Espíritos Superiores a respeito da aplicação dos postulados evangélicos na vida diária. Pela primeira vez, na História do Cristianismo, os ensinamentos de Jesus foram tirados para fora dos templos e entraram como código ético-moral na discussão de temas sociais. Foi verdadeiramente uma volta às origens da mensagem cristã, nos moldes dos ensinamentos e exemplos de Jesus, que fundia as duas realidades: a religiosa e a profana, tornando-as indissociáveis no viver cotidiano.

No capítulo intitulado Da Lei do Trabalho, Kardec dialoga com os Espíritos, propondo-lhes questões de alta relevância para o aperfeiçoamento da relação entre capital e trabalho, obtendo respostas que se constituíram em verdadeiro libelo do Evangelho contra a exploração do trabalhador. As ideias moralizadoras do relacionamento entre o capital e o trabalho não foram estribadas nas imperfeitas leis terrenas, elaboradas, quase sempre, no interesse dos poderosos. Não, Kardec conseguiu dos Espíritos Superiores, e deu, ele próprio, sua valiosa colaboração nesse assunto, no sentido de se estabelecer uma diretriz mais humana, mas com base no Evangelho. Pela primeira vez, na Europa dita cristã, uma voz se levanta e sai do contexto religioso a orientar o homem na vida fora dos templos, numa demonstração de que o amor ao próximo que se aprende no Evangelho é para ser aplicado na vida comum e não apenas ouvido, emocionadamente, no interior dos santuários. O Codificador, mediante sábias e humanas perguntas, obtém dos Espíritos Superiores, respostas lapidares como estas, registradas em O Livro dos Espíritos: (…) Todo homem que tem o poder de mandar é responsável pelo excesso de trabalho que impõe a seus inferiores, porque transgride a lei de Deus. (684) O forte deve trabalhar pelo fraco. Na falta da família, a sociedade deve tomar o seu lugar; é a lei da caridade. (685-a)

Kardec, inaugurando uma verdadeira sociologia cristã, dialoga com os Espíritos Superiores a respeito de temas como: liberdade de pensar, direitos da mulher, escravidão, pena de morte, laços de família e tantos outros temas que eram deixados de lado pelos teólogos, ocupados que estavam em criar teorias salvacionistas, na pretensa condição de depositários únicos da Mensagem de Jesus.

E ao Espiritismo coube a primazia de reviver esses ensinos na sua pureza, objetividade e pujança originais, reinserindo a vivência das verdades do Evangelho na vida diária. É verdade histórica: não pode ser contestada.


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Maio de 2015