Inteligência e moralidade na visão espírita por Cezar Braga Said

É mister que uma farta corrente idealista, um potente sopro moral varram as sombras, as dúvidas, as incertezas que ainda pesam sobre tantas inteligências e consciências para que um raio das verdades eternas ilumine os cérebros, aqueça os corações e leve consolo àqueles que penam e sofrem.

Léon Denis – O mundo invisível e a guerra – Introdução.

 

Aprendemos com Allan Kardec, ao longo de toda a Codificação Espírita e, particularmente, no livroObras póstumas, que a sociedade futura será regida por caracteres predominantemente intelectuais e morais.

Não será possível formar intelectualmente as novas gerações sem que estejamos realizando um movimento similar como evangelizadores, pois, além de nosso discurso se tornar oco e sem sentido, estaremos desmentindo com ações o que proclamamos com a palavra.

Essa formação intelectual se dá com o concurso de boa parte das instituições formativas às quais evangelizandos e evangelizadores têm acesso e, também, com o esforço próprio de cada um em procurar esse alimento sagrado que é o conhecimento.

Esses dois grupos, evangelizandos e evangelizadores, poderão encontrar excelentes obras também fora da literatura espírita, alguns até seguirão um caminho acadêmico, fazendo cursos de graduação e pós. Outros se enquadrarão numa postura autodidata. Mas seja qual for a escolha, se efetivamente estiverem e permanecerem sempre em processo de evangelização, a tendência tanto de quem evangeliza quanto de quem é evangelizado, será sempre a de se perguntar: O que tenho feito e o que posso fazer das minhas conquistas intelectivas? Que emprego digno posso dar ao conhecimento? Como socializá-lo? Como utilizá-lo dentro de uma perspectiva cristã?

É nesse exercício inquisitivo e reflexivo que entra a consciência, essa chama divina que nos aquece e ilumina interiormente, dando um sentido e uma direção aos nossos passos e às nossas aquisições.

Essa voz interna e inata, cuja presença reflete a nossa descendência divina é que nos faz pensar no emprego dos recursos sublimes com os quais renascemos e que podemos ampliar todos os dias.

É a consciência iluminada pelas diretrizes evangélicas capazes de nos convencer e converter que nos fará empregar nossas aquisições sempre a serviço de algo nobre, belo, bom e justo, especialmente nas ações comuns do cotidiano que passam despercebidas e permanecem  no anonimato.

De acordo com a Codificação, especificamente nas notas das questões 71 e 585, de O livro dos Espíritos, podemos caracterizar a inteligência da seguinte maneira:

dá, com o pensamento, a vontade de atuar;

nos permite ter a consciência da própria existência;

nos faculta a percepção de que somos uma individualidade;

nos dá condições para que sejam estabelecidas relações com o mundo exterior;

dá meios para cada um de nós prover às suas próprias necessidades;

dá a consciência do futuro;

dá a percepção das coisas extramateriais;

dá o conhecimento de Deus ou daquilo que pode nos conduzir a uma melhor compreensão dEle.

Sempre que levamos em conta tais aspectos, no trabalho da evangelização espírita, tanto no planejamento quanto na execução, estamos contribuindo para o desenvolvimento intelectual dos nossos evangelizandos.

Por outro lado, pensando numa possível compreensão do que seja a moral, também em O livro dos Espíritos, na questão 629, nos deparamos com a seguinte definição:

A moral é a regra de bem proceder, isto é, a faculdade de distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da lei de Deus. O homem procede bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque então cumpre a lei de Deus.

Percebemos o quanto esta definição, sob a ótica espírita, se encaixa como um desdobramento natural da caracterização anterior que Allan Kardec faz da inteligência. Na verdade, ela dá diretrizes, projeta luzes sobre aqueles itens, nos levando a pensar em como e para quê devemos usar a nossa vontade, as percepções de que existimos e que somos uma individualidade. Em que bases se dão as nossas relações? Provemos nossas necessidades de maneira honesta, fraterna, respeitando as diferenças e os diferentes? Que fazemos do conhecimento espiritual adquirido? Repartimos o que sabemos e nos abrimos para aprender com os outros?  Que imagem de Deus projetamos em nossos filhos e evangelizandos?

Este é o campo da moral, um campo prático de ação e reflexão, em que a ação realimenta e corrige aspectos não totalmente compreendidos da teoria e esta norteia e apara as arestas da prática.

Allan Kardec ainda dirá a respeito da moral em nota à questão 685:

Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos.

A instrução que os livros fornecem com histórias, exemplos, fábulas,  apólogos, contos, crônicas e poesias é também muito válida pelos elementos que nos falam ao intelecto e não nos parece que ele exclua esse material, mas enfatiza o aspecto prático e vivencial.

Semelhante visão e diretriz Kardec trouxe de suas vidas pretéritas, as aprimorou no castelo de Yverdon, onde a metodologia pestalozziana  priorizava a vivência das virtudes mais do que o seu ensino, crendo que desenvolvemos melhor aquilo que vivenciamos. Além disso, nos trinta anos de magistério pôde, também, desenvolver ainda melhor sua visão de educador.

Assim, se mais do que aulas de evangelização tivermos práticas evangelizadoras (que não excluem os momentos teóricos), mais facilmente poderemos contribuir para o desenvolvimento intelectual e moral desses Espíritos que cruzam o nosso caminho.


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Maio de 2015