Moisés, Jesus e Allan Kardec por Alessandro Viana Vieira de Paula

Na literatura espírita encontramos diversas referências às denominadas Três Revelações. No livroCintilação das Estrelas [cap.2], o Espírito Camilo, através da mediunidade de José Raul Teixeira, mostra-nos a perfeita integração que há entre os Dez mandamentos, o Evangelho de Jesus e o Espiritismo.

A princípio, Camilo nos aponta que em tudo há um planejamento divino, um controle superior, de forma que Deus jamais age de improviso e sempre está presente, inspirando a criatura humana para sua plenitude espiritual, etapa a etapa, sem pressa, como, por exemplo, ao permitir a reencarnação de Espíritos evoluídos, que nos trazem elevados conceitos e posturas nobres.

A Divindade, em Sua infinita sabedoria, respeitando e entendendo os nossos limites, organizou a vinda das Três Revelações de forma notável, havendo um encadeamento lógico na cronologia temporal.

À época de Moisés, éramos crianças espirituais, necessitando mais de limites em nossas condutas levianas e irresponsáveis, de tal sorte o que o citado líder hebreu, guiando um povo indisciplinado, tenta imprimir as nuanças do respeito ao semelhante e da fidelidade ao Único Senhor.

Por essa razão, Moisés, no Monte Sinai, entra em sintonia com os Embaixadores do Cristo, e nos traz o Decálogo, que, segundo Camilo, constituiu-se em bússola segura e em freio, impondo normativas de acatamento e moderação, tornando-se, assim, a grande carta que traz notícias do anseio de Jeová, com relação aos tutelados humanos.

Do Decálogo, a maioria dos preceitos é em tom negativo – não ter outros deuses, não dizer o nome do Senhor em vão, não matar, não adulterar, não furtar, não dar falso testemunho e não cobiçar – os quais, com exceção dos dois primeiros, estão vinculados à postura do indivíduo com seus semelhantes.

A criança, em seu processo educacional, ouve muito a expressão não. Não faça isso, Não pode, Não é permitido, Não, você vai se machucar. É uma forma de impressionar e chamar a atenção da criança com vigor.

Enquanto crianças espirituais, na época de Moisés, precisávamos ouvir o não, por isso, o Decálogo, ao estabelecer o princípio de justiça, ensina o que não devemos fazer, com o escopo de não dificultarmos o nosso processo evolutivo.

Após séculos, Jesus, personificando a segunda e maior das Revelações,  encarnou-se no orbe terrestre, advindo, assim, a juventude espiritual do planeta, em condições de ouvir o que o Doce Nazareno tinha a ensinar.

Jesus refez variados conceitos e sintetiza o Decálogo em dois mandamentos: o amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Na condição de jovens espirituais, tínhamos condições de saber o que fazer. O jovem já não necessita ouvir tantos não, está mais carente de informação e diretriz, de forma que é mais comum dizermos: Faça assim, Assim é o correto, Pense nisso etc.

Jesus, o Modelo e Guia de nossas vidas, veio nos ensinar o significado profundo do amor, mas não foi apenas um teórico, viveu o amor na sua plenitude, mostrando o que devemos fazer ao próximo e, ao executarmos, realizar como se estivéssemos fazendo a nós.

Dessa forma, a segunda Revelação representa o seguinte ensino: O que fazer?

Camilo, ao dar prosseguimento ao seu notável raciocínio, acentua que passados dezoito séculos nos quais Sua mensagem e Seus Feitos [referindo-se a Jesus] estiveram trancafiados nas masmorras escolásticas, empoeirados em cofres de usura, brilhantes e frios sobre pedras de escuros altares ou adulterados, no verbo interesseiro dos maus obreiros, renasce, no Ocidente, a personagem gloriosa de Rivail.

Hippolyte Rivail estuda os ensinos de Moisés, dedicado. Penetra a aura evangélica e se emociona com a saga do Cristianismo, sorvendo seu conteúdo a longos haustos. Trava contato com seres que haviam deixado o pouso da matéria, pelo fenômeno da morte. Dialoga com esses imortais e se aprofunda na eloquência dos raciocínios e no sentido real da fé impoluta e refletida. Logra reunir, num só trabalho, o questionamento filosófico, a busca fria da ciência e a lucidez que dirige a crença, ardorosa e racional.

O Espiritismo é a terceira Revelação que, além de repetir as revelações anteriores, ensinou-nos coisas novas (as leis divinas), que nos capacitam a entender o sentido da vida e a causa dos sofrimentos.

Assim sendo, o Consolador prometido representa o por que fazer?

Ao tomarmos contato com as verdades divinas, passamos a entender o porque temos que amar (fazer o bem a todos e sem impor condições) e o porque devemos evitar o mal, em seus variados aspectos (violência, calúnia, indiferença, omissão, egoísmo, vaidade etc.)

Lamentavelmente, muitos de nós ainda sequer conseguimos entender e vivenciar o Decálogo, isto é, ainda causamos danos e sofrimento na vida do próximo, porque o cobiçamos ou desejamos seus cônjuges, matamos sua dignidade e esperança, furtamos seus bens ou sua alegria de viver, entre outras atitudes.

Aquele que é capaz de, conscientemente, lesar ao próximo, ainda não tem condições de dimensionar o significado e a abrangência do amor, esse sentimento sublime que nos conduz a Deus.

Há aqueles que são incapazes de fazer o mal, mas também são impotentes para fazer o bem, situando-se numa faixa de neutralidade que os faz estacionar no processo evolutivo.

Para esses (maus e neutros) e para aqueles que já conseguem fazer o bem ao semelhante, ainda que de forma modesta, vem o Espiritismo, racionalizando a nossa fé e ensinando por que devemos amar (é a nossa destinação, é a fatalidade após sermos criados por Deus, por isso, fora da caridade não há salvação) e nos instruir (para que o conhecimento nos liberte das algemas da ignorância), revigorando as energias e a motivação daqueles que, nos dias atuais, pensam em desistir do bem e da paz, ou acomodam-se diante das facilidades da vida moderna.

Por essa razão, Camilo finaliza seu apontamento, afirmando que: Identificamos, então, a tríade concorde com todos os fundamentos: Moisés, Jesus e o Espírito de Verdade, que teve em Allan Kardec o Seu iluminado Servidor. O amor a Deus, na projeção do amor ao próximo, aí está a grande ensancha de redenção do gênero humano. (…)

Na programação celestial não há tricotomia particularista ou distúrbios entre os mensageiros. O que se vê é uma integração perfeita entre revelações e reveladores, cada qual portando sua característica, não obstante, em função de cada época e das suas conquistas gerais.

Evitemos o mal, a ociosidade e a indiferença.  Façamos o bem e sejamos úteis na sociedade em que vivemos, espalhando a mensagem do amor (sermos cartas vivas do Evangelho), cientes de que somos filhos de Deus, destinados à perfeição relativa, e cooperadores da construção do mundo de regeneração.


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Junho de 2015