Os trabalhadores de todas as horas por Rogério Coelho

O Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada,
a fim de assalariar trabalhadores para a sua vinha – Jesus.
(Mt, 20:1 a 16)

Em todas as épocas da História da Humanidade, a Misericórdia Divina sempre beneficiou a Terra enviando seus Missionários da Luz, que esparziam a mancheias as benesses do Mundo Maior, atenuando, destarte, as sombras da ignorância e do sofrimento…

A eclosão de uma ideia, de uma filosofia de vida, não se dava de forma repentina, inesperada, surgida do nada… Todo o arcabouço da ideia já fora adredemente desenhado no Mundo Espiritual e sua aplicação obedece a um planejamento criterioso, dividido em fases que vão, desde os singelos primórdios até à exuberância da ideia já implantada, sedimentada e definitivamente adotada pela maioria e, finalmente, por todos, em sua fase final. Conhecendo esse mecanismo e prevendo o futuro ─ ainda remoto ─ é que Jesus afirmou: (…) e haverá um rebanho e um Pastor. (Jo, 10:16)

A parábola dos trabalhadores da última hora expõe, com peregrina clareza, as diversas fases dos movimentos regeneradores da Humanidade, na qual observamos que o Pai de Família envia para sua vinha cinco levas de trabalhadores:

1ª – sai de madrugada e contrata os primeiros;

2ª – sai à hora terceira;

3ª – sai à hora sexta;

4ª – sai à hora nona, e, finalmente

5ª – sai à hora décima primeira e contrata os últimos.

Observemos a simetria existente entre o tempo de contratação dos primeiros até os da hora nona.  Os períodos são iguais: existe uma diferença de três horas entre cada um.   Isso nos leva a observar o planejamento e a perseverança em cumpri-lo, dentro de uma cronologia perfeita e harmoniosa…

Agora, observemos que o período compreendido entre a nona hora e a décima primeira hora é menor. Isso significa que a ideia, já sedimentada, implanta-se com mais rapidez e menos dificuldades, porque passa a ser aceita com mais presteza, dada sua lógica e racionalidade, tendo, também, menos obstáculos a enfrentar do que em sua origem. O Cristianismo obedeceu a esse critério: a madrugada do Cristianismo começa com o patriarca Moisés e vai até o apagar das luzes do Velho Testamento, em Malaquias (4:5), quando é anunciada a vinda de Elias, que não é outro senão João Batista (o precursor de Jesus) e temos nele (em João Batista) a hora terceira, extinguindo-se o período anterior (da madrugada) em Sócrates e Platão que esboçaram, de forma ostensiva, os primeiros desenhos das ideias cristãs e pasmem!…, das ideias espíritas também!…

A hora sexta é caracterizada pela chegada de Jesus e de Seus Apóstolos, responsáveis pela semeadura ─ no solo sáfaro dos corações ─ das primeiras sementes da Era Nova.

Na hora nona surge a figura singular de Paulo, o Apóstolo dos Gentios e de tantos outros que deram continuidade à obra inicial, estendendo-se esse período por todo o tempo em que as ideias cristãs foram se expandindo, mercê do trabalho incansável e profícuo dos vexilários do amor e da abnegação, cujos nomes honram a História dos Povos…

Eis que surge a última hora: a décima primeira, quando entram na liça os sustentadores da ideia que, pouco a pouco, invadem a estrutura da sociedade em todas as latitudes…

Aqueles que colaboraram nas fases iniciais reencarnam para continuar a obra.  Daí a assertiva messiânica exarada no capítulo vinte, versículo dezesseis do Evangelho escrito por Mateus: Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos.

Assim é porque os trabalhos humanos são coletivos e Deus abençoa a solidariedade. Não nos pode, portanto, surpreender o fato de que muitos, dentre aqueles que participaram dos movimentos primitivos, revivem hoje e reviverão amanhã para terminar a obra que começaram outrora. Cada vez retornam mais esclarecidos, mais adiantados, trabalhando não na base, mas no acabamento do edifício e, porque mais familiarizados com o serviço pela experiência adquirida nos milênios, a fase final (da nona à décima primeira hora) se processa em mais curto lapso de tempo.

Assim, podemos resumir:

Madrugada – Moisés, Malaquias, Sócrates;

Hora terceira – João Batista (precursor);

Hora sexta – Jesus e Seus Apóstolos (semeadura);

Hora nona – Paulo a Francisco de Assis;

Hora décima primeira – Allan Kardec.

Constantino, Espírito protetor, explica[1]: Bons espíritas, meus bem-amados, sois todos obreiros da última hora.  Bem orgulhoso seria aquele que dissesse: Comecei o trabalho ao alvorecer do dia e só o terminarei ao anoitecer. Todos viestes quando fostes chamados, um pouco mais cedo, um pouco mais tarde, para a encarnação cujos grilhões arrastais; mas há quantos séculos e séculos o Senhor vos chamava para a sua vinha, sem que quisésseis penetrar nela! Eis-vos no momento de embolsar o salário; empregai bem a hora que vos resta e não esqueçais nunca que a vossa existência, por longa que vos pareça, mais não é do que um instante fugidio na imensidade dos tempos que formam para vós a eternidade.

Não significa, porém, que os trabalhadores das diversas fases estejam restritos à elas de forma estanque.  Os mesmos Espíritos podem participar das várias fases, mesmo que permeadas por séculos: a reencarnação explica.

Henri Heine detalha[2]:

(…) a reencarnação eterniza e precisa a filiação espiritual. Chamado a prestar contas do seu mandato terreno, o Espírito se apercebe da continuidade da tarefa interrompida, mas sempre retomada. Ele vê, sente que apanhou, de passagem, o pensamento dos que o precederam. Entra de novo na liça, amadurecido pela experiência, para avançar mais. E todos, trabalhadores da primeira e da última hora, com os olhos bem abertos sobre a profunda justiça de Deus, não mais murmuram: adoram.

Tal um dos verdadeiros sentidos desta parábola, que encerra, como todas as de que Jesus Se utilizou falando ao povo, o gérmen do futuro e também, sob todas as formas, sob todas as imagens, a revelação da magnífica unidade que harmoniza todas as coisas no Universo, da solidariedade que liga todos os seres presentes ao passado e ao futuro.

 

 


[1] – KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 129.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2009, cap. XX, item 2.

[2] – Idem, ibidem, cap. XX, item 3.


Artigo do Jornal Mundo Espírita - Junho de 2015