Fidelidade Kardequiana por Maria Helena Marcon

Na Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, item I, de O livro dos Espíritos, o Codificador assinalou:

Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras.

Surgem ali os termos Espiritismo, espírita, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis.

Assinala, finalizando o parágrafo, que os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espiritistas.

Ao longo dessa primeira obra, várias palavras irão sendo cunhadas pelos Espíritos ou pelo próprio Codificador.

Em O livro dos médiuns, primeira edição francesa de 1861, no capítulo primeiro, nada menos de cento e sessenta vocábulos são apresentados.

Entre eles, os tão utilizados de forma incorreta, por criação a bel prazer dos que menosprezamos o estudo da obra kardequiana e o uso correto da língua pátria, e não atendemos a detalhes. Referimo-nos às palavras encarnação e reencarnação que, em várias circunstâncias, observamos sendo utilizados os termos encarne e desencarne, como se tivessem o mesmo significado ou fossem sinônimos.

Tal deslize verdadeiramente denota como, embora os cento e cinquenta e sete anos decorridos, pouco atentamos ao estudo da Doutrina Espírita e ao conhecimento do bom vernáculo.

Outra questão, bastante comum, é de nos servirmos, em nossas falas e escritos de termos utilizados por outras crenças ou ciências, esquecendo-nos do hercúleo trabalho de Allan Kardec e do esforço dos Espíritos que assinaram a Codificação Espírita em tudo apresentar de forma clara e precisa.

Parece-nos desdouro ou desprezo ao que temos de tão precioso: a Doutrina Espírita.

Referindo-nos, de forma específica, aos termos encarnação e reencarnação, vejamos o que encontramos na edição citada de O livro dos médiuns:

Incarnation. Étad des Esprits qui revêtent une enveloppe corporelle. On dit: Esprit incarné, par opposition à Esprit errant. Les Esprits sont errants dans l´intervalle de leurs différentes incarnations. L´incarnation peut avoir lieu sur la terre ou dans un autre monte. (Voy. Réincarnation.)

Encarnação. Estado dos Espíritos que revestem um invólucro corporal. Diz-se: Espírito encarnado, por oposição a Espírito errante. Os Espíritos são errantes no intervalo de suas diferentes encarnações. A encarnação pode ter lugar na Terra ou em outros mundos. (Ver. Reencarnação.)

 

Réincarnation. Retour de l´Esprit à la vie corporelle.

Reencarnação. Retorno do Espírito à vida corporal.

 

No Dicionário de Oxford, o vocábulo Reencarnation apareceu, pela primeira vez, no ano de 1858.

O Dicionário Aurélio define Encarnação como cada uma das existências do espírito materializado, segundo a crença espiritista e Reencarnação como  o ato ou efeito de reencarnar-se [reassumir o Espírito a forma material. Tornar a encarnar.]

Menciona ainda o verbo encarnar e reencarnar e somente na sua conjugação poderemos ter as formas VERBAIS encarne [que ele/ela encarne] e reencarne [que ele/ela reencarne]. Veja-se a observação de que encarne é deverbal de encarnar.

O Dicionário Michaelis, por sua vez, apresenta o termo Encarnação e Reencarnação, com os devidos significados. Encarne aparece como derivação regressiva de encarnar. Nenhuma referência a reencarne.

Embora estejamos nos reportando à obra de 1861, onde consta o extenso Vocabulário Espírita, ambas as palavras apareceram na edição de O livro dos Espíritos, de 1857. Essa primeira edição continha somente quinhentas e uma questões, portanto, a numeração não corresponde à edição que conhecemos, publicação de março de 1860, refundida e consideravelmente aumentada, chegando aos 1018 itens.

Na obra O Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec, 1857, texto em fac-símile, versão em face Primeiro centenário 1957, de Canuto Abreu, edição Companhia Editora Ismael, São Paulo, colhemos:

 

Chapitre V, Incarnation des Esprits

Capítulo V, Encarnação dos Espíritos

80 – [2ª. Pergunta] – Quel est le but de l´incarnation des esprits?

Dieu la leur impose dans le but de les faire arriver à la perfection: pour les uns c´est une expiation, pour d´autres c´est une mission.

 

80 – [2ª pergunta] – Qual é o objetivo da encarnação dos Espíritos?

Deus a impõe aos Espíritos a fim de os fazer chegarem à perfeição; para alguns Espíritos é expiação; para outros, missão.

 

Chapitre VII – Différentes incarnations

Capítulo VII – Diferentes encarnações, tendo como primeiro sub-título – De la réincarnation des esprits (Da reencarnação dos espíritos).

 

125 – [2ª pergunta] – Quel est le but des différentes incarnations?

Expiation; amélioration progressive de l´humanité: sans cela où serait la justice?

 

125 – Qual é o objeto das múltiplas encarnações?

Expiação; aprimoramento progressivo da Humanidade: sem isso onde estaria a justiça?

 

126 – Sur quoi est fondé le dogme de la réincarnation?

Sur la justice de Dieu et la révélation, car nous vous le répétons sans cesse: un bon père laisse toujours à ses enfants une porte ouverte au repentir. (…)

 

Em que é fundamentado o dogma da reencarnação?

Sobre a justiça de Deus e na Revelação, pois vo-lo repetimos sem cansaço: um bom pai deixa sempre uma porta aberta ao arrependimento aos seus filhos. (…)

 

Com tudo isso, é de nos indagarmos por que e a partir de quando resolvemos criar novos vocábulos, para o que foi perfeitamente especificado, desde o princípio?

Talvez digam alguns que isso se trata de se prender a detalhes. Bom recordar que fácil é se adulterar, no tempo, bons entendimentos e corretos ensinos.

Todos os que nos dizemos espíritas e especialmente, os que ocupamos as tribunas para divulgar a Doutrina ou escrevemos artigos ou livros, devemos ser absolutamente fiéis aos detalhes.

A Doutrina Espírita teve como Codificador um homem que dominava o idioma francês, em que foi escrita. Não se tratava de um pedagogo somente, mas de um grande conhecedor do idioma que, entre outras obras, publicou Grammaire française classique sur um nouveau plan (In-12, de 160 pp. Imprim. De Ducessois, Paris, 1831). Terá sido por mero acaso que Hippolyte, antes de se tornar o Codificador, tenha tido toda essa grande e profunda formação?

Terá sido por mero capricho que o Codificador especifica que para coisas novas são precisos termos novos, pois que aplicando-se outras palavras à Doutrina dos Espíritos, fora multiplicar as causas já numerosas de anfibologia?

Pensemos nisso e nos disponhamos a falar e escrever corretamente, obedecendo aos preceitos doutrinários muito bem delineados na Codificação Espírita.

 

 Obs.: Le livre des médiums, edição de 1861, doada à FEP por Leandro Ramos de Souza, da Sociedade Espírita de Assistência e Promoção Social Tereza de Jesus, de São José, vizinho Estado de Santa Catarina, se encontra em processo de digitalização e deverá, em breve, figurar entre as demais obras raras, disponibilizadas na Biblioteca Espírita Virtual. (www.bibliotecaespirita.com.br).

   


Por Maria Helena Marcon
Artigo do Jornal Mundo Espírita - Fevereiro/2014