Cinematografia por Maria Helena Marcon

Lado a lado

Há os que dizem que os filmes somente veiculam violência e sensualidade. No entanto, para quem deseja realizar o trabalho de um garimpeiro, terá a grata surpresa de, em meio ao cascalho das trivialidades, encontrar ouro e diamantes de precioso quilate.

Lançada em 29 de janeiro de 1999, em nosso país, com o título Lado a lado, a produção norteamericana Stepmom, é uma dessas preciosidades.

Embora porte a categoria de comédia dramática, suas características são mesmo de um grande drama familiar, enfatizando problemas de relacionamento entre pais, filhos, cônjuges divorciados.

Os produtores tiveram esmerado cuidado na seleção do elenco, colocando nos papéis principais atrizes de igual magnetismo. Dois ícones do cinema: Júlia Roberts e Susan Sarandon.

Isso confere equilíbrio à trama, considerando que quando uma atriz supera em plástica, beleza física e simpatia à outra, mesmo que seu papel seja o da maldade, há uma tendência do público a apoiá-la. Vejam-se os filmes violentos, com galãs especialmente escolhidos e a reação do público de lhes aplaudir as ações malévolas.

Susan interpreta Jackie, a mãe divorciada, que precisa aceitar que, em certos dias, seus filhos, Anna, de 12 anos e Ben, de sete, fiquem em casa do pai, Luke, que mora com a namorada, uma fotógrafa bem sucedida, Isabel, interpretada por Júlia Roberts.

Isabel é mais jovem, o que já causa um certo desconforto a Jackie mas, o ponto crucial é que, catalogando-se como uma mãe perfeita, Jackie não pode admitir que as crianças fiquem sob os cuidados da outra.

A frieza e quase maldade com que as pequenas falhas de Isabel são exageradas por ela, perante os filhos, torna todos os esforços daquela infrutíferos. Nada do que ela faça está bom. O não ter providenciado determinada roupa para a menina, o ter se atrapalhado na agenda da escola e tê-la feito perder uma aula, tudo se torna um motivo de guerra de palavras e acusações.

Anna, mirando-se no exemplo materno, é extremamente rude com Isabel, enquanto Ben, a seu modo, procura dificultar-lhe as mínimas tarefas, com sua indisciplina a horários e compromissos.

O que se reflete, logo de início, é a dificuldade das crianças em admitir que os pais se separaram e não voltarão a viver juntos. Anna chega a fantasiar, ao ponto de dizer para a orientadora da escola que os pais estão reatando. Como ela mesmo afirma para a mãe, ao ser confrontada, acho que inventei isso porque pensei que criando em minha mente, poderia  tornar realidade.

Outras dúvidas que tomam a cabecinha de ambos os filhos é que se o amor do pai pela mãe acabou, o amor que ele tem por eles também acabará um dia?

O pai, diga-se, é extremamente paciente, buscando ajustar situações entre a ex-mulher e a namorada, entre essa e os filhos, sem muito êxito.

Isabel verdadeiramente se esforça para conquistar os meninos. Percebe-se que ela ama, profundamente, Luke. Não o deseja somente para si, mas pensa na felicidade dele, registrando a qualidade essencial do amor.

Quando ela imagina que Jackie vai se mudar para outra cidade e levará os filhos consigo, chega às lágrimas, implorando-lhe que não faça isso, que Luke ama os filhos e ficará infeliz se tiver retirada a possibilidade de os ter próximos e poder vê-los,  conviver com eles, em alguns dias da semana.

Portanto, deixa claro que o seu não é um amor possessivo, em que deseje aquele homem somente para si, nem uma simples ou louca paixão. Ela registra a tônica do verdadeiro amor. Deseja conviver com aquele homem, mas mais que tudo o deseja feliz.

O menino Ben, aos poucos, vai se deixando envolver por Isabel, que se esmera em conquistá-lo. Contudo, registrando a atitude defensiva da mãe para com ela, ele se propõe: Mãe, se você quiser que eu a odeie, eu odeio!

Recordamos de Nelson Mandela, que afirmou: Ninguém nasce odiando outra pessoa… Para odiar, é preciso aprender. E, se podem aprender a odiar, as pessoas também podem aprender a amar.

Isso nos leva a reflexionar acerca da grande responsabilidade dos pais na educação dos filhos. Que lhes estamos ensinando? Estamos permitindo que nossa própria amargura, desgosto, frustração sejam absorvidas por eles e que eles passem a agir da forma que nós o fazemos, agredindo, ferindo? Que se tornem as nossas armas da vingança?

Quando o panorama parecia impossível de piorar, Luke faz a proposta de casamento para Isabel, tornando-a a madrasta oficial de Anna e Ben. O clima fica mais tenso. Todas as esperanças da menina de que os pais reatassem a união matrimonial se esvai como areia fina entre os dedos.

E, ficar em casa do pai, tendo que suportar a presença de Isabel, assume uma dimensão inaceitável. A garota a enfrenta, chamando-a de mãe postiça, da qual ela não precisa ouvir nenhum conselho e a quem não deve, nem precisa obedecer.

A postura de Isabel é admirável: ela persevera nas ações e não se constrange em pedir desculpas a Anna e Ben, ao futuro marido ou à Jackie, em momentos em que se atrasa alguns minutos para apanhar as crianças na escola, ou, por atender seu trabalho profissional, não se dá conta da fuga do menino, que se diverte criando-lhe situações embaraçosas.

Mesmo quando ela se esmera, ao ponto de criar problemas no desenvolvimento das suas atividades profissionais, para atendê-los, o que recebe é a frieza, o olhar de desprezo e de indiferença.

Contudo, como o amanhã somente Deus conhece, o diagnóstico de um câncer devastador surpreende Jackie. A forma de encarar a doença é bem apresentada na trama.

A reação negativa, as mentiras, escondendo a própria situação são a forma de Jackie dizer da sua revolta. Ela vai partir e os seus filhos ficarão com seu marido e com a outra, mulher,  jovem, profissional bem sucedida.

Será, contudo, ante a iminência da morte que se unirão todos, enfrentando juntos as situações novas. Isabel, ampliando seu papel de esposa e mãe daqueles pequenos, enquanto ampara Jackie, igualmente, precisará realizar a grande opção entre a sua carreira exitosa e o que a família dela exige, naquelas circunstâncias.

Como enfrentar a morte que se aproxima e as lições de imortalidade são o ponto alto do filme. As crianças fazem perguntas diretas como, por exemplo: Você está morrendo? Você está com medo?

E tudo é preparado para o futuro de saudade. Quando o pequeno diz que sentirá muitas saudades, afirmando que não lhe bastará trazê-la no coração, a mãe lhe fala de como haverão de se encontrar nos sonhos.

Perfeitamente de acordo com os ensinos de O livro dos Espíritos, a partir da questão 400, quando aborda a Emancipação da alma. O sono e os sonhos, e traça detalhes dos encontros espirituais, o diálogo da mãe com o filho é de que se encontrarão nas asas do sonho, nos dias de inverno, verão, na chuva, o que se pode registrar como os dias de felicidade ou dias de dificuldades que a criança virá a ter, no transcorrer da sua vida.

Poderemos até voar, diz Jackie.

Para a filha, dirá que estará sempre presente, assistirá sua formatura, seu casamento, o nascimento dos seus bebês. Não é o que nos ensina a Doutrina Espírita? De que os que nos amam, ao partirem, prosseguem a nos amar, se constituindo em Espíritos familiares (O livro dos Espíritos, item 514 e seguintes).

A pretensa comédia é uma verdadeira história de amor, de família e força. Acrescente-se o tom de amor filial, pois que o filme foi dedicado à memória de Irene Columbus, mãe do diretor, que morreu de câncer em torno de um ano antes da produção.

Algumas músicas conferem maior significado a certas cenas, como a canção que Isabel canta para o menino, no Hospital:

 

If I needed you       

Se eu precisasse de você

Será que você viria para mim

Para aliviar a minha dor?

 

Se você precisasse de mim

Gostaria de chegar a você

Queria nadar os mares

Para aliviar a sua dor.

 

A canção Ain’t no mountain high enough,  incluída na trilha sonora do filme, é de Marvin Gaye e Tammi Terrel, que morreu, em 1970, vítima de um tumor cerebral.

Sua mensagem é de amor, que suplanta a morte, a distância.

 

Escute, querida.

Não há montanha alta

Não há vale profundo

Não há rio largo o suficiente, querida…

 

Se você precisar de mim, me chame

Não importa onde você esteja

Não importa a distância

Apenas chame meu nome

Estarei lá depressa.

 

Você não tem que se preocupar.

Meu amor está vivo

Bem dentro do meu coração

Embora estejamos separados por milhas

Se você precisar de uma ajuda

Estarei lá rapidamente

Tão rápido quanto puder.

 

Você sabe que não há montanha alta o suficiente

Não há vale profundo o suficiente

Não há rio largo o suficiente

Que me impeça de te alcançar, querida…

 

As lições se multiplicam de várias formas sobre a Terra. Aos que desejemos aprender, crescer, nos basta abrir os olhos, os ouvidos, a mente e o coração.

 

Ficha Técnica:

Direção: Chris Columbus

Música: John Williams

Elenco:  Julia Roberts (Isabel)

Susan Sarandon (Jackie)

Ed Harris (Luke)

Jena Malone (Anna)

Liam Aiken (Ben)

Duração: 125 minutos.

Produzido em 1998.

   


Por Maria Helena Marcon
Artigo do Jornal Mundo Espírita - Março/2014