Fetos prematuros e a vida por Edson Gomes Tristão

Recentemente, divulgou-se pelas redes sociais, notícia não confirmada com detalhes a respeito do vídeo de um ano de vida do bebê Ward Milles.

Nada de excepcional se, nessa idade, não mostrasse o peso da criança, de apenas mil e quinhentos gramas. O fato mais inusitado é a notícia de que ela nasceu aos três meses e meio de gravidez (aproximadamente quinze semanas), no Hospital Infantil  Natiowide, em Columbus, Ohio – EUA, não sendo relatado seu peso.

Na ausência de informações mais detalhadas, achamos difícil acreditar na sobrevida fetal com essa idade, desde que informações anteriores sobre o nascimento de prematuros extremos (abaixo de mil gramas de peso) relatam que, entre os menores fetos sobreviventes, estão as gêmeas Ramaisa Rahman, com duzentos e sessenta gramas e sua irmã Madeleine, com quatrocentos e cinquenta gramas. Nesse caso, a duração da gestação foi de 26,6 semanas. No Brasil, um dos menores nascimentos prematuros informado, ocorreu em Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte. A gestação tinha aproximadamente vinte e quatro/vinte e cinco semanas e a criança pesou trezentos e sessenta gramas.

Geralmente, os fetos abaixo de quinhentos gramas ou vinte/vinte e duas semanas, são considerados abortos e, incompatíveis com a vida. Eventualmente, podem ter pesos abaixo desse valor mas, com idade gestacional maior. Essa ocorrência é chamada Restrição do Crescimento Fetal Intraútero e pode ser causada por patologias maternas ou fetais.

Além de alta mortalidade, os prematuros extremos, quando sobrevivem, podem cursar com complicações como: cegueira, paralisias cerebrais, convulsões, hemorragias intracranianas, malformações cardíacas etc.

Essas repercussões são tão graves na vida do futuro ser que existe consenso mundial, entre os neonatologistas, em evitar condutas agressivas, a fim de manter a sobrevivência para esses fetos.

Apesar das dificuldades, a ciência avança e não será impossível, em mais alguns anos, que muitos fetos com nascimento abaixo desses limites citados possam estar convivendo conosco e lutando pela vida em iguais condições dos que nasceram a termo.

Além das possibilidades do aumento da sobrevida, observa-se também mais estudos profundos e respeitados, internacionalmente, sobre a constituição mental desses fetos e embriões durante a vida intrauterina. A afirmação de alguns estudiosos, de que embriões eram apenas um amontoado de células, passou, nos últimos anos, a ser avaliada de forma completamente diferente, não se aceitando mais esse conceito, nos dias atuais. Com o aparecimento da ultrassonografia, possibilitou-se o acesso direto à imagem fetal, conferindo maior credibilidade aos achados intraútero, permitindo avaliar o desenvolvimento embriológico e fetal e o comportamento desses inquilinos do útero materno aos estímulos biológicos e ambientais como luminosidade, som, emoções maternas, dor, ameaças diretas etc.

Estudo da movimentação fetal, avaliação do ritmo cardíaco e apreciação do estado de calma ou agitação, podem fornecer uma ideia do psiquismo do feto, com sinal de comportamento independente da mãe, a partir de seis/sete semanas de gestação (Relier, 1995).

Para a psicanalista brasileira Joanna Wilheim (Wilheim,2003), o feto  tem uma vida afetiva e emocional, estreitamente vinculada à sua experiência relacional com a mãe, captando seus estados emocionais e a sua disposição afetiva com ele e, na busca do alívio das tensões, desenvolve mecanismos psíquicos de defesa, que são expressos através de movimentações do corpo. São reações parecidas com as do RN em sofrimento que se contorce, grita, chora, esperneia, para se livrar do que lhe causa desespero. Esses acontecimentos ficam registrados no seu inconsciente, podendo repercutir em sua vida, após o nascimento.

A consagrada psicanalista italiana Alessandra Piontelli (Piontelli,1992), observou pela ultrassonografia, semanalmente, durante um ano, várias gestações, registrando que esses bebês eram capazes de sugar, espreguiçar, coçar, bocejar, brincar com a placenta e o cordão umbilical, além de reconhecer a voz da mãe e captar seu estado emocional. Relata detalhes interessantes no caso de gêmeos, quando foi possível, através do comportamento deles dentro do útero, fazer uma perspectiva da personalidade futura, após o nascimento. Essa hipótese foi comprovada, com alto índice de acerto, ao acompanhar muitas dessas crianças, até cinco anos de idade. Conclui, dizendo que, para muitos investigadores psíquicos (psicólogos e psicanalistas), existe uma concordância de que o bebê antes de nascer é um ser inteligente, sensível, apresentando traços de personalidade própria e bem definida.

Na literatura espírita é possível observar também essa influência. No livro Entre a Terra e o Céu, do autor espiritual André Luiz, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, ao descrever parte do processo reencarnatório de Júlio, pode-se ler:

A corrente de troca entre mãe e filho não se circunscreve à alimentação de natureza material; estende-se ao intercâmbio constante das sensações diversas. Os pensamentos de Zulmira guardam imensa força sobre Júlio, tanto quanto os de Júlio revelam expressivo poder sobre a nova mãezinha. As mentes de um e de outro como que se justapõem mantendo-se em permanente comunhão, até que a Natureza complete o serviço que lhe cabe no tempo (…) Certos estados íntimos da mulher alcançam, de algum modo, o princípio fetal, marcando-o para a existência inteira.

O mesmo autor volta a abordar o tema no livro Missionários da Luz, durante a descrição da reencarnação de Segismundo, quando a visita dos amigos espirituais à futura mãe só é liberada após a vigésima primeira semana de gestação (quinto mês), a fim de evitar interferências psicobiológicas deletérias entre a mãe e o feto.

Estudos científicos sérios, associados aos ensinamentos de mentores espirituais, que nos trazem informações de respeito e proteção ao embrião e feto, nos dão a certeza de que nunca haverá arrependimento ao valorizar a vida, independente das condições  do corpo ou da sua idade.

Na questão 344, de O Livro dos Espíritos, onde se pergunta em que momento a alma se une ao corpo, a resposta é bastante clara de que a união começa na concepção, mas só é completa por ocasião do nascimento.

Proteger a vida humana, no período embrionário ou fetal é, portanto, uma obrigação, desde que se trata de pessoas que não estão em condições de se defender e a maneira como uma sociedade trata seus membros mais vulneráveis é um dos melhores indicativos de seu grau de civilidade. O feto, assim como os idosos e os doentes, precisa ser respeitado, ficando protegido de ideologias que pretendem enquadrá-lo como descartável.

 

Referências:

1.KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2001.

2.PIONTELLI, Alessandra. De feto a criança – Um estudo observacional e psicanalítico. Rio de Janeiro: IMAGO, 1995.

3.RELLIER, J. P. L’aimer avant qu’il naisse. Le lien mére enfant avant la naissance. Paris: Éditions Robert Laffont, 1993.

4.WILHEIM, Joana. A Caminho do Nascimento – uma ponte entre o biológico e o psíquico. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.

5.XAVIER, Francisco Cândido, pelo Espírito André Luiz. Entre a Terra e o Céu. Rio de Janeiro: FEB, 2010, cap.30. pp. 207-212.

6.__________________ Missionários da Luz. Rio de Janeiro: FEB, 2010, cap. 14. pp. 255-268.

   


Por Edson Gomes Tristão
Artigo do Jornal Mundo Espírita - Março/2014