Uma releitura das comemorações na evangelização por Cezar Braga Said

Acreditou-se por muito tempo ter feito bastante, difundindo a instrução; mas a instrução sem o ensino moral é impotente e estéril. É preciso, antes de tudo, fazer da criança um homem – um homem que compreenda os seus deveres e conheça os seus direitos. Não basta desenvolver as inteligências, é necessário formar caracteres, fortalecer as almas e as consciências. Os conhecimentos devem ser completados por noções que esclareçam o futuro e indiquem o destino do ser.  (Léon Denis – Cristianismo e Espiritismo, cap. XI)

 

Desejando acompanhar o que ocorre no calendário escolar, na sociedade como um todo e também levar em consideração certos aspectos da nossa cultura, muitas vezes, promovemos, sem nos dar conta, uma série de enxertos prejudiciais, no trabalho da evangelização infanto-juvenil na casa espírita.

Esse fenômeno decorre da falta de uma análise mais acurada do ponto de vista da Doutrina Espírita sobre esses mesmos eventos e comemorações. Análise que, existindo, nos permite verificar o que deve ser contemplado e qual o enfoque doutrinário a ser dado.

Assistimos Centros Espíritas oferecendo ovos de chocolate, máscaras e miniaturas de coelhos na época da páscoa, desenhos do Papai Noel e pequenas tocas vermelhas no natal ou próximo a esse. No período das festas juninas, inúmeras casas promovem quadrilhas, comidas típicas são feitas e as crianças e jovens se vestem com trajes característicos e próprios desses festejos.

Tudo isso, de uma forma ou de outra, é cultivado nas escolas e nos lares, o que tem sido ainda normal, tendo em vista os valores sociais, toda uma propaganda massiva das diferentes mídias, o comportamento de crianças que se influenciam mutuamente e a nossa própria dificuldade em andar na contramão dessas tradições em alguns casos e modismos em outros.

Mas, quando paramos para pensar nos objetivos de um trabalho de evangelização nos moldes espíritas, não temos como normalizar ou naturalizar práticas que nos distanciam da proposta de educar crianças e jovens à luz do Espiritismo, especialmente no Centro Espírita.

Em se tratando da páscoa, por exemplo, é importante que apresentemos o seu real significado aos evangelizandos, mostrando, de maneira lúdica, as origens históricas desse fato, o que ele representou e ainda representa para os que nos dizemos cristãos. E fontes espíritas não faltam para subsidiar nossas consultas.

O mesmo diz respeito ao natal, de modo que a figura de Jesus ganhe centralidade e não o consumismo que impera nessa data.

Com relação às chamadas festas juninas e julinas, que são um mix de catolicismo, cultura europeia e africana, com regionalismos brasileiros, tudo pode ser esclarecido, comentado e trabalhado à luz do Espiritismo, nas aulas de evangelização.

A Doutrina Espírita não postula nenhum tipo de fechamento ou alienação por parte de quem siga os seus postulados e atue num Centro Espírita. Também não nos impede de estarmos nessas festas com amigos e familiares, convivendo e nos confraternizando sempre com equilíbrio, mas nos convida a pensar que tudo o que seja trazido para o ambiente espírita deva ser objeto de uma reflexão séria, serena e coletiva, a fim de verificarmos se tal prática se coaduna ou não com os princípios doutrinários.

Do contrário, corremos o risco de fazermos do espaço da  Evangelização um excelente ambiente multicultural de convivência muito agradável, onde reproduzimos passivamente a cultura sem senso crítico, deixando de contribuir positivamente para a formação de uma mentalidade espírita crítica, analítica e fraterna, capaz de fornecer ferramentas importantes na formação do futuro homem de bem, do aristocrata intelecto-moral, como indica Allan Kardec em Obras Póstumas.

O Centro Espírita que nos alberga não é o espaço do não pode, da sisudez, da rigidez, ao contrário, a alegria deve ser cultivada em nossas relações permeando nossas reflexões em torno do eu posso, eu devo, verificando convergências e divergências entre o que desejamos implementar e a fonte que nos inspira e norteia, que é a Codificação.

As informações doutrinárias nos oferecem subsídios para canções, poesias, peças de teatro, dança, escultura, literatura, pintura e tudo o mais que se relacione à arte.

É possível, portanto, termos um ambiente evangelizador saudável, rico de estímulos e com contribuições culturais diversas, naturalmente examinadas e ressignificadas à luz da Terceira Revelação, sem nenhum prejuízo da qualidade e da beleza, da sensibilidade e da atualidade, tanto na organização e planejamento quanto na execução de nossos programas de evangelização.

A questão é que fazer assim dá trabalho, exige estudo, preparação prévia e contínua, elaboração conjunta, amadurecimento e revisão de certos pontos, ao passo que reproduzir ou simplesmente proibir são atitudes muito mais fáceis, porém, pouco ou quase nada doutrinárias.


Por Cezar Braga Said
Artigo do Jornal Mundo Espírita - Maio/2014