Reflexões sobre a adoção por Noeval de Quadros

…pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e entender estrelas!
Olavo Bilac

Roberto Carlos Ramos era um menino problemático, criado na FEBEM, em Belo Horizonte, com histórico de várias fugas e considerado irrecuperável, quando conheceu a pedagoga Margherit Duvas.

A vida desse menino, que é pedagogo mineiro, pós-graduado e considerado um dos maiores contadores de história da atualidade, só mudou porque foi adotado aos treze anos, por essa mulher que transformou aquele adolescente rebelde com palavras e atitudes carinhosas.

Essa história real, retratada no filme O contador de histórias, mostra que aquela mulher teve ouvido capaz de ouvir e entender uma estrela obscurecida pela dureza dos corações humanos. Impossível não lembrar, aqui, do ensinamento dos Espíritos: quanto piores forem as propensões do filho, tanto mais pesada é a tarefa e tanto maior o mérito dos pais, se conseguirem desviá-lo do mau caminho.1

Há mais de quarenta mil crianças e adolescentes abrigados no Brasil, aguardando a possibilidade de retorno à família ou adoção. Dessas, aproximadamente cinco mil encontram-se aptas para adoção, ou seja, são órfãos ou seus pais foram destituídos do poder familiar. Segundo estudos do Conselho Nacional de Justiça, desse total, 80% têm idade superior a oito anos e apenas 1% de chances de serem adotadas, em razão do perfil mais procurado pelos pretendentes à adoção ser de recém-nascidos, de cor clara e com saúde perfeita.2

Estima-se que esses infantes atingirão os dezoito anos de idade, na instituição, oportunidade em que serão, de regra, desabrigados e terão de encontrar um meio de tocar a vida sozinhos.

Autoridades buscam sensibilizar os pretendentes à adoção para que alarguem a sua faixa de interesse.3 A ideia é fazer com que essas pessoas reflitam sobre os motivos que as levam a adotar e estimulá-las a vencer alguma dificuldade para aceitar, como filho, uma criança de mais idade, negra, com necessidades especiais, ou ainda, um grupo de irmãos.

O nobre instituto da adoção não é novo. Moisés foi salvo das águas e cresceu no palácio, adotado pela filha do faraó, cuja caridade fraterna o recolhera, segundo Emmanuel. Ali adquiriu os conhecimentos iniciáticos e primorosa educação, preparando-se para libertar o povo hebreu do jugo egípcio e receber os Dez Mandamentos, legando à posteridade a base de toda a justiça do mundo, na grande jornada em busca da Terra da Promissão.4

Jesus, na hora extrema da cruz, ao ver a sua mãe e, de pé ao seu lado, o discípulo que Ele amava, diz à mãe: “Mulher, eis o teu filho.” A seguir, diz ao discípulo: “Eis a tua mãe.” Desde aquela hora, o discípulo a recebeu em sua própria casa.5 Jesus entregou um ao outro, num gesto simbólico de adoção, para que não lhes faltasse o amparo mútuo. E Maria cuidou de João, e João cuidou de Maria, até a sua morte.

Para os especialistas, adotar não é um ato de caridade, mas um ato de socialização, de construção de uma sociedade mais justa. Adota-se, não para preencher uma lacuna na vida do adotante e sim pensando no outro, para exercer um papel de cidadão.

Afinal, a Constituição Federal de 1988, tida como a Constituição-cidadã, preceitua:

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 65, de 2010).

Seguindo essa ordem, o dever primeiro é da família em velar pelo bem das crianças, adolescentes e jovens. Se a criança está sem lar, é porque a família faltou, ou falhou. Cumpre então à sociedade, em segundo lugar, organizar-se e não permitir que ela cresça sem um lar substituto, ou que envelheça enclausurada nas instituições. Se o Estado tem de fazer esse papel, por meio do acolhimento em instituições, é porque a sociedade também não deu conta dessa tarefa.

Para nós, espíritas, porém, a adoção não é apenas um dever social, ou constitucional.  É mais que isso. É exercício de amor incondicional. É o deixai vir a mim os pequeninos, numa das suas acepções mais profundas. Quem adota, o faz por amor e doa-se por abnegação, diz Amélia Rodrigues.6

Há muitas famílias com espaço físico em casa e suficiente dose de amor para abrigar mais um. Famílias maravilhosas que podem servir como referência positiva para uma ou mais pessoas que venham privar do seu convívio. O filho adotivo é um Espírito que sempre vem para nos trazer felicidade. Pode ser que venha para promover ajustes conosco mas, mesmo nesse caso, será motivo de alegria poder reencontrá-lo.

A Espiritualidade procura, nos corações generosos da Terra, a oportunidade de encaminhar o filho que vem pela via da adoção.

O mentor Emmanuel nos fala, na mensagem Filhos adotivos:

Muitos de nós, nas estâncias do pretérito, teremos pisoteado os corações afetuosos que nos acolheram em casa, seja escravizando-os aos nossos caprichos ou apunhalando-lhes a alma a golpes de ingratidão. Desacreditando-lhes os esforços e dilapidando-lhes as energias, quase sempre lhes impusemos aflição por reconforto, a exigir-lhes sacrifícios incessantes até que lhes ofertamos a morte em sofrimento pelo berço que nos deram em flores de esperança.

Um dia, no entanto, desembarcados no Mais Além, percebemos a extensão de nossos erros e, de consciência desperta, lastimamos as próprias faltas.

Corre o tempo e, quando aqueles mesmos Espíritos queridos que nos serviram de pais retornam à Terra em alegre comunhão afetiva, ansiamos retomar-lhes o calor da ternura, mas, nesse passo da experiência, os princípios da reencarnação, em muitas circunstâncias, tão somente nos permitem desfrutar-lhes a convivência na posição de filhos alheios, a fim de aprendermos a entesourar o amor verdadeiro nos alicerces da humildade.7

Um Espírito familiar abordou a questão dos Órfãos, na Codificação, dizendo: Meus irmãos, amai os órfãos. Se soubésseis quanto é triste ser só e abandonado, sobretudo na infância! Deus permite que haja órfãos, para exortar-nos a servir-lhes de pais. Que divina caridade amparar uma pobre criaturinha abandonada, evitar que sofra fome e frio, dirigir-lhe a alma, a fim de que não desgarre para o vício! Agrada a Deus quem estende a mão a uma criança abandonada, porque compreende e pratica a Sua lei.8

Um pouco adiante, o Espírito alerta: Ponderai também que muitas vezes a criança que socorreis vos foi cara noutra encarnação, caso em que, se pudésseis lembrar-vos, já não estaríeis praticando a caridade, mas cumprindo um dever.8

Essa questão, porém, não deve ser o centro das nossas preocupações porque, conforme Kardec afirmou, não são os da consanguinidade os verdadeiros laços de família e sim os da simpatia e da comunhão de ideias, os quais prendem os Espíritos antes, durante e depois de suas encarnações.9

Não há nada que gratifique mais uma pessoa que adota do que a certeza de que no mandamento amar ao próximo como a si mesmo estão abrangidos o ato de transmitir valores positivos, servir como referência a uma infância esquecida, ajudar um adolescente a adquirir autonomia, dar amor e limites, enfrentar os desafios de uma paternidade como outra qualquer.

Concretizada a adoção, não existe mais filho adotivo ou pais adotivos. São simplesmente filho e pais. Ou, como afirma Amélia Rodrigues: de certo modo, somos todos filhos adotivos uns dos outros, pelo corpo ou sem ele, porquanto, a única paternidade verdadeira é a que procede de Deus, o Genitor Divino, que nos criou para a glória eterna.6

Contar-lhe, porém, a verdade, de forma natural, sem receio de perdê-lo, é o que Emmanuel recomenda:

E se tens na Terra filhos por adoção, habitua-te a dialogar com eles, tão cedo quanto possível, para que se desenvolvam no plano físico sob o conhecimento da verdade. Auxilia-os a reconhecer, desde cedo, que são agora teus filhos do coração, buscando reajustamento afetivo no lar, a fim de que não sejam traumatizados na idade adulta por revelações à base de violência, em que frequentemente se lhes acordam no ser as labaredas da afeição possessiva de outras épocas, em forma de ciúme e revolta, inveja e desesperação.

Efetivamente, amas aos filhos adotivos com a mesma abnegação com que te empenhas a construir a felicidade dos rebentos do próprio sangue. Entretanto, não lhes ocultes a realidade da própria situação para que não te oponhas à Lei de Causa e Efeito que os trouxe de novo ao teu convívio, a fim de olvidarem os desequilíbrios passionais que lhes marcavam a conduta em outro tempo.7

Nem todos os adolescentes e crianças que estão nas instituições são revoltados pela falta de carinho, como o Roberto Carlos citado. Muitos desenvolveram, por uma habilidade natural, a resiliência, ressignificando os acontecimentos de sua vida. Têm, sim, grande carência afetiva mas são, na sua maioria, meninos e meninas dóceis, alegres, cheios de sonhos e expectativas, com as mesmas dúvidas e angústias de qualquer outro ser com personalidade em formação.

No caso desse menino, considerado irrecuperável, o amor venceu todas as barreiras. E a história contemporânea está repleta de exemplos como esse, de adoções menos comuns, com feliz desfecho para adotantes e adotados.

Se quiser saber mais sobre adoção, procure a Vara da Infância e Juventude da sua cidade ou um dos Grupos de Apoio à Adoção.

Como ensina Joanna de Ângelis, o amor é um tesouro que, quanto mais se divide, mais se multiplica, e se  enriquece à medida que se reparte.10

 

 

[1]O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, ed. FEB, item 583.

2 Jornal Gazeta do Povo, 14/4/2014: http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/especial-infancia-esquecida/conteudo.phtml?id=1461776.

3 Projeto Adote um novo motivo, da Corregedoria da Justiça do Paraná, lançado em 7/5/2014. Maiores informações: fone 41.3200-2071, no CONSIJ (41. 3017-2734) ou nos Grupos de Apoio à Adoção.

4 A Caminho da Luz, Francisco Cândido Xavier, Emmanuel, ed. FEB, cap. VII.

5 Evangelho de João, 19:26 e 27.

6 SOS Família, Divaldo Pereira Franco, Joanna de Ângelis e outros Espíritos, ed. LEAL,  cap.28.

7Astronautas do Além, Francisco Cândido Xavier/J. Herculano Pires, Espíritos diversos, ed. GEEM, cap.5.

8 O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec, ed. FEB, cap. XIII, item 18.

9  O. cit., cap. XIV, item 8.

10Amor, imbatível amor, Divaldo Pereira Franco, Joanna de Ângelis, ed. LEAL, cap.1.

   


Por Noeval de Quadros
Artigo do Jornal Mundo Espírita - Agosto/2014