Transplante de órgãos, morte física e repercussões espirituais por Edson Gomes Tristão

Informações fantasiosas e, muitas vezes, especulativas, divulgadas pela mídia, como sequestros de pessoas para roubo e venda de órgãos destinados a transplantes assim como a interrupção precoce da vida de um paciente para esse mesmo fim, acabam confundindo a população e desenvolvendo um verdadeiro temor sobre esse tema.

Os transplantes de órgãos exigem um estudo prévio e detalhado entre o sistema imunológico do doador e receptor para avaliar a  compatibilidade entre os dois organismos. Exames laboratoriais sofisticados, equipes de profissionais preparados enfrentando uma das cirurgias mais complexas da medicina tornam esse ato impossível de ser realizado de improviso e fora de grandes hospitais.

O Brasil possui uma legislação completa sobre esse tema. Os critérios para diagnóstico de Morte Encefálica são bem definidos pela Resolução 1.480/97 do CFM (Conselho Federal de Medicina) com os seguintes achados clínicos: ausência de reflexos do tronco cerebral e coma aperceptível (pupilas paralíticas, arreatividade e insensibilidade, ausência de reflexo córneo-palpebral e óculo-vestibular). Essas constatações são respaldadas por um exame subsidiário que demonstre ausência de atividade elétrica cerebral (eletroencefalograma) ou de perfusão sanguínea cerebral (carotidoangiografia), permitindo excluir as situações de hipotermia e depressão medicamentosa. Constatada a Morte Encefálica, o paciente não tem possibilidade de retorno à vida, mesmo continuando a respirar e seu coração batendo espontaneamente ou através de aparelhos. Esse é o momento ideal para a retirada do órgão doado. O exame clínico será ainda repetido em um período de seis a doze horas, por dois médicos, sendo um neurologista, e confirmado pelos exames gráficos nos hospitais captadores de órgãos. Os médicos que assistem o paciente não devem pertencer à equipe de transplante e será permitida a presença de um médico de confiança da família para acompanhar esse diagnóstico. Além disso, em todos os casos de doação de órgãos, deverá haver, previamente, o consentimento da família.

Todos esses cuidados e o seguimento da legislação própria dão segurança e confiabilidade aos transplantes em nosso país.

Resta ver o outro lado desse ato médico, que são as repercussões perispirituais. Sabe-se que o conceito de morte definido pela ciência depende apenas da avaliação dos fenômenos biológicos. A desencarnação é um processo bastante complexo de desligamento do Espírito do corpo, envolvendo fatores materiais, emocionais e espirituais e que inicia no momento da morte física. O próprio tipo de morte tem influência (acidental ou crônica), condição evolutiva do ser, idade etc. Ao responder a questão 155 de O Livro dos Espíritos, feita por Allan Kardec, os benfeitores espirituais assim se manifestaram: A alma se desprende gradualmente, não se escapa como um pássaro cativo a que se restitua subitamente a liberdade. (…) esses laços se desatam, não se quebram (…) se opera gradualmente e com uma lentidão muito variável conforme os indivíduos. (…)

Ao serem desligados todos os laços que prendem o Espírito à matéria, esta começa seu estado de decomposição, mesmo com os aparelhos mantenedores da vida ligados. Baseado nesses conhecimentos fica claro que, no momento em que ocorrer a retirada de órgãos para doação, o Espírito ainda estará ligado ao corpo, ocorrendo uma repercussão psicológica e perispiritual. Como se comportará esse Espírito? Ele tinha doado os órgãos antes ou foi uma decisão da família? Pode se revoltar contra o ato?

Alguns defendem a ideia de que a doação de órgãos para transplante, por si mesma consiste em um gesto de amor e por isso o Espírito do doador será amparado e suas dores sanadas pelos benfeitores espirituais. Essa observação está coberta de razão, desde que a iniciativa tenha partido do doador e não da sua família somente, sem consulta prévia ao mesmo.

Muitas doações de órgãos provêm da morte de pessoas jovens, vítimas de ocorrências violentas, como acidentes de trânsito e a família faz um ato de caridade ao direcionar os órgãos para transplantes, mas, na realidade nunca conversou com esse familiar sobre o assunto.

Existe também a confirmação da troca de energias perispirituais entre doador e receptor, como relata o pesquisador americano Paul Persall, no livro Memória das Células. O autor avaliou vários transplantados nos Estados Unidos, comprovando a mudança de hábitos de muitos deles, que passaram a se comportar como o doador, causando problemas em suas vidas e com seus familiares.

A Doutrina Espírita é a favor do transplante de órgãos, desde que se trata de um ato de caridade e um desprendimento do corpo físico, que não terá mais função após a saída do Espírito, lembrando sempre que é uma decisão de cada um. Cabe à comunidade promover a sensibilização dos prováveis doadores e receptores, através de campanhas e palestras, a fim de desenvolver um preparo psíquico e espiritual, que favoreça a sintonia energética, sem causar traumas ao Espírito que está desencarnando e favorecendo a aceitação do corpo perispiritual ao novo órgão que veio trazendo a vida.

 

Bibliografia:

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução do CFM n. 1480, 8 de agosto de 1997.

PEARSALL, Paul. Memória das Células. São Paulo: Mercuryo, 1999.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1ª. ed. comemorativa. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Questão 155-a.

   


Por Edson Gomes Tristão
Artigo do Jornal Mundo Espírita - Setembro/2014