Malévola por Maria Helena Marcon

O filme chegou às telas no final de maio de 2014, baseado no conto A bela adormecida, de Charles Perrault.

Os contos de fadas apresentam, habitualmente, a dicotomia: o bem e o mal. De modo geral, quem personifica o mal, continua mau. Ou seja, o conto acaba bem para quem é bom e sempre mal para quem é mau.

Não deixa de ser uma alegoria ao conceito de inferno com suas penas eternas, um ser diabólico, eternamente voltado ao mal, uma mensagem equivocada de que o mau não tem jeito, em total desacordo à lei de progresso, conforme lemos em O livro dos Espíritos, terceira parte, cap. VIII.

Por isso, o filme surpreende, com sua abordagem inovadora. Malévola é a protetora do reino dos moors. É uma menina que tem asas e muitos poderes. Seu aspecto é paradoxal. Enquanto sempre se idealizou que somente os Espíritos maus se apresentam com chifres, embora toda a sua beleza, ela os tem longos e curvados.

Sua bondade, no entanto, e as ações que empreende no sentido de manter a paz entre o reino dos moors e o dos homens, descarta, de imediato, qualquer preconceito ou temor quanto a essa particularidade.

Quando ela conhece o garoto Stefan, a amizade inicial se transforma em amor. E, com o amor, a confiança total. Ela se entrega a esse amor e, como muitas crianças, trocam juras de eterno compromisso de amizade e lealdade.

Sabemos que na adolescência é que o Espírito realmente revela as suas más tendências, herança das vidas anteriores, se uma boa educação, na infância, não burilou o homem velho. (O livro dos Espíritos, perg. 385)

E, assim, Stefan esquece da magia e da beleza da terra dos moors, da adorável amiga e se envolve nas políticas do reino, demonstrando sua ambição.

Um dia, o rei oferece a coroa em troca do extermínio de Malévola, pois o seu desejo é dominar aquelas terras, ávido de anexar territórios ao seu próprio, estendendo seus domínios.

Stefan é o único que consegue se aproximar dela, pois, embora transcorrido o tempo, ela guarda o amor em seu coração. Depois de horas idílicas, em que ela afoga a saudade de tantos anos de ausência, adormece tranquila, ao lado do jovem. Traiçoeiramente, ele corta suas asas com correntes de ferro, a fraqueza que nela descobrira, quando em criança, e as leva ao rei, como prova da missão cumprida, tornando-se, dessa forma, o novo rei.

Um detalhe: todo herói, nos contos de fadas ou na mitologia, têm um ponto fraco. Nós também, enquanto não nos tornarmos Espíritos puros, apresentamos pontos fracos, nossas paixões negativas, que são o porto de entrada para as agressões espirituais que possamos vir a sofrer.

A dor de Malévola, ao despertar, é terrível, e não se pode avaliar se maior é sua dor física ou moral. Quem pode descrever o que sente um coração traído?

A partir desse momento, ela deixa de ser a criatura boa para se armar de ódio e vingança. E, como aprendemos na Doutrina Espírita, que a nossa psicosfera individual cria a psicosfera do ambiente onde nos encontramos, na medida em que mais pensa na vingança, o local dantes pleno de vida e cor, vai se tornando sombrio.

Está decretada a total inimizade entre o reino dos homens e o dos moors. A floresta se fecha, inacessível aos humanos. E ali, no isolamento, a agora bruxa alimentará, dia a dia, o seu desejo de desforra.

Utiliza dos poderes que ainda possui e transforma um corvo em humano. Será seu servidor fiel, ora na forma humana, ora como ave, sobrevoando o reino de Stefan e lhe trazendo as notícias.

E é assim que ela saberá do casamento de Stefan e, um dia, da grande festa de batizado da sua filha recém-nascida, Aurora, a que, sem convite, ela comparece.

Seu propósito é atingir Stefan no que ele tem de mais precioso: a menina. E isso nos remete aos esclarecimentos da Doutrina Espírita que, em sua vasta literatura, nos oferece as informações a respeito da obsessão e das sutilezas de que se servem os Espíritos maus para alcançarem os seus propósitos, por vezes, atingindo afetos mais próximos. Um desses exemplos se encontra na narrativa de Manoel Philomeno de Miranda, na obra recebida mediunicamente por Divaldo Pereira Franco, Grilhões partidos, publicação da editora LEAL. Frise-se a nuance de que, sempre, a criatura atingida terá igualmente dívidas severas com a Lei, não se tratando de inocente sofredora.

Mas, ali está Malévola para lançar a sua terrível maldição à recém-nascida: quando ela completar dezesseis anos, espetará o dedo no fuso de uma roca de fiar e cairá em sono profundo, do qual somente um beijo de verdadeiro amor a poderá despertar.

Naturalmente, ao abrir uma brecha para a possibilidade da reversão da maldição, Malévola idealizou um tipo de amor erótico e quem iria amar uma menina adormecida? Também pensou, sim, que o rei, em tentando preservá-la, a manteria isolada. Portanto, quem poderia vir a amá-la?

Nova lição a ser observada. Conforme o que aprendemos em a Doutrina Espírita, o amor é de essência divina e todos, do primeiro ao último dos seres, temos, no fundo do coração, a centelha desse fogo sagrado. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XI, item 9)

E nos esquecemos de que existe o profundo amor de mãe, de pai, de irmãos, de cônjuge, filho, enfim, uma infinidade de nuances onde fica difícil se dizer quem ama mais, considerando que a intensidade do sentimento não reside na sua adjetivação.

Logo, a lei é dada para todo o reino: sejam recolhidas todas as rocas de fiar, trancadas no calabouço do castelo, a menina levada para longe, para a floresta, entregue aos cuidados benfazejos de três fadas.

E, novamente, fazemos a ligação com as orientações espirituais. Se foi especificado o que faria mal à menina, por que não destruir o objeto? Por que guardá-lo em um lugar pretensamente ignoto?

E as orientações de Jesus nos acodem à mente quando nos convida a tomar do arado e não olhar para trás (Lucas, 9:62), a estando no telhado, não descer para o interior da casa (Mateus, 24:17), a estando no campo não retornar para buscar a capa (Mateus, 24:18), ou seja, todas orientações ao Espírito de que, no esforço de superação das suas mazelas espirituais, não retorne a pontos anteriores. Guardar as rocas significa não desejar, verdadeiramente, se libertar do mal.

Ocorre que as fadas são um tanto distraídas e desajeitadas e quem acaba cuidando, mesmo, de Aurora, é Malévola. Ela a alimenta, enviando-lhe leite, desde o primeiro dia, quando chora de fome. E, quando, sozinha, começa a andar pela floresta, será sempre Malévola quem a acompanhará.

Para onde vai a peste, agora? – Dizia e, se o seu intuito era não perder de vista o alvo amaldiçoado, acabará se tomando de amores pela menina.

Extraordinária lição: o Espírito mau se transforma, ao despertar do amor. A demonstração de que o homem, por mais abjeto, vil e criminoso que seja, vota a um ente ou a um objeto qualquer viva e ardente afeição, à prova de tudo quanto tendesse a diminuí-la e que alcança, não raro, sublimes proporções. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XI, item 9)

E a pequena Aurora buscará o carinho de mãe, de que carece, exatamente no colo de Malévola, a quem passa a chamar de sua fada-madrinha. Ela sente o amor que a envolve e não teme seu aspecto sombrio, toda vestida de preto, os longos chifres, igualmente negros e ameaçadores. O amor vê o invisível, não a exterioridade.

Próximo a completar seus dezesseis anos, Aurora encontra, na floresta, um cavaleiro, que procurava chegar ao castelo e se havia perdido. Antes de lhe indicar o caminho correto, eles conversam e prometem se reencontrar.

Por um descuido das tias fadas, Aurora acaba sabendo que, na realidade, era filha do rei. Nessa altura, o desejo dela era morar para sempre na floresta encantada, mas acaba descobrindo que Malévola fora quem havia proferido a terrível maldição que selaria o seu destino.

E, no auge de toda essa confusão, Aurora toma a decisão de ir para o castelo, a fim de assumir seu verdadeiro lugar e ficar com seu pai. Eis um grande perigo: tomar decisões de chofre, em momentos de confusão mental, em que as ideias não se apresentam claras. Bem se diz que o travesseiro é bom conselheiro. Ou seja, orar antes de dormir, preparar-se para o sono e aguardar os conselhos espirituais do anjo de guarda que, no que denominamos sonho, nos pode orientar, aconselhar.

O rei, durante esses anos, se tornara paranoico, demonstrando que se permitira enlear mais e mais pela ambição, desequilibrando-se totalmente. Ao ver a filha, simplesmente a manda trancar em uma das torres para que a maldição não se cumpra.

A ambição desmedida, o anseio da posse de novos domínios, que ainda não conseguira, apesar das tantas batalhas, o deixara de tal forma insensível ao afeto, que não lembra de abraçar, acarinhar, acolher a jovem. Nada indaga a seu respeito, depois de dezesseis anos de ausência. Seu único objetivo é dominar a floresta encantada, uma verdadeira obsessão.

Ao saber que Aurora se dirigira ao castelo, Malévola tenta desfazer a própria maldição, sem êxito. Afinal, ela mesma decretara que somente um beijo de amor verdadeiro a poderia despertar.

Instada pelo fiel corvo/homem, vendo o jovem cavaleiro retornar à terra dos moors, em busca de Aurora, Malévola o enfeitiça, colocando-o em sono profundo e começa a viagem no rumo do palácio. Enquanto isso, a princesa foge de sua prisão e, atraída por algo irresistível, chega ao local onde se encontram as rocas e espeta o dedo no fuso, adormecendo. Estava cumprida a maldição.

Maktub é a palavra árabe que significa está predestinado, está escrito. Pensamos: estamos com nosso destino selado, desde que nascemos? Isso estaria totalmente em desacordo ao livre-arbítrio (O livro dos Espíritos, perg. 843 e SS.)

Aprendemos que a cada dia construímos o seguinte e que, embora reencarnemos com um planejamento determinado, tudo pode ser alterado: dores amenizadas, acidentes que não se concretizarão, eventos prorrogados, até mesmo a hora da morte pode ser alterada, tudo dependendo da forma como vivamos cada dia.

O ponto alto do filme é a cena do beijo do cavaleiro, que não desperta Aurora. Então, Malévola se aproxima, com a alma em frangalhos, beija a testa da princesa, derrama uma lágrima e lhe pede perdão. Quando está para se retirar, ouve: Oi, madrinha.

Reencontrar o amor verdadeiro faz com que Malévola deixe definitivamente de ser a bruxa má, para voltar a ser a fada. Agora, não mais uma fada inocente e inexperiente, mas uma fada que viu o quão grosseiro pode ser o mundo fora de sua floresta encantada, e que ainda assim consegue manter a conexão com a sua essência eterna.

Na sequência da história, enquanto tenta, com Aurora, fugir do castelo sem serem vistas, Malévola é pega numa armadilha com uma rede de ferro e precisa lutar contra o rei e seus guardas.

Enquanto isso, a princesa, distanciando-se da batalha desigual, encontra as asas trancafiadas de Malévola e as retira da caixa de vidro. Elas voam em direção a Malévola, unindo-se novamente ao corpo.

Bela imagem: quando Malévola transforma seu ódio em amor pelo mundo, ela se reconcilia com sua essência e volta a ter todos os poderes.

Ela deseja somente sair dali, desiste de lutar, deseja paz: Acabou. –  É o que diz. Ela havia perdoado tudo que acontecera. Perdoar não significa exatamente esquecer, porque isso é da memória, mas reconhecer que o ódio e o ressentimento são apenas represas para o amor. Perdoar é não desejar vingança. Infelizmente, o final triste para o mau, ao menos em parte, se apresenta. O rei não desiste, vai ao encalço dela, tenta atingi-la, cai da torre e morre. (Contamos com a reencarnação para sua transformação moral.)

O filme acaba mostrando o reino encantado voltando a ser como era antes, na infância de Malévola, com as cores alegres, as flores, muita claridade. Tudo rescendendo a paz e felicidade. Exatamente o mundo novo que todos desejamos, que se concretizará, com a transformação de nós mesmos.

Para quem, eventualmente, ainda não assistiu Malévola, informamos que todos acabam felizes, incluindo Aurora, que se casa com o jovem cavaleiro. Recomendamos o filme. Para quem já viu, reveja, com olhos de ver, ouvidos de ouvir e perceberá quantas mensagens positivas apresenta. E nos lembramos de que os Espíritos, em respondendo ao Codificador, disseram que o Espiritismo se tornará crença geral e marcará nova era na história da humanidade, porque está na Natureza e chegou o tempo em que ocupará lugar entre os conhecimentos humanos.  (O livro dos Espíritos, perg. 798)

Estamos a caminho. A pouco e pouco, as ideias vão sendo disseminadas por literatos, artistas, músicos, produtores de cinema…

Ficha técnica:

Gênero: Fantasia

Direção: Robert Stromberg

Roteiro: Linda Woolverton, Paul Dini

Elenco: Angelina Jolie, Brenton Thwaites, Craig Izzard, Elle Fanning, Hannah New, Imelda Staunton, India Eisley, Juno Temple, Kenneth Cranham, Lesley Manville, Miranda Richardson, Sam Riley, Sharlto Copley

Produção: Don Hahn, Joe Roth, Richard D. Zanuck

Fotografia: Dean Semler

Duração: 97 min.

Ano: 2014

 


Por Maria Helena Marcon
Artigo do Jornal Mundo Espírita - Março/2015