Sinais precursores do Espiritismo por Rogério Coelho

Há dois milênios e meio Sócrates oferecia noções de Espiritismo a seus discípulos.

 (…) e Eu rogarei ao Pai, e Ele  vos enviará outro Consolador…  Jesus.  (Jo. 14:16)

 

O  Espiritismo  é  um  só: aquele que foi codificado por Allan Kardec, em meados do século dezenove, ao apresentar em Paris, no dia 18 de abril de 1857, a primeira edição de O Livro dos Espíritos.

Sem embargo, por mais  paradoxal  que  possa  parecer,  o Espiritismo é novidade, mas não é novo: sempre  existiu  desde que o mundo é mundo! Apenas o ignorávamos… Isso vem confirmar o brocardo: Não existe nada de novo sob o Sol.

Muito  antes  do  aparecimento  oficial   da Doutrina Espírita com Allan Kardec ─ na França ─, homens de  alta inteligência   possuíam  intuição  de  sua  realidade.  Se não empregaram o termo Espiritismo, é porque este ainda não existia, pois se trata de um neologismo criado pelo mestre lionês, com a precípua intenção de evitar se multiplicassem as causas já numerosas de anfibologia.

Há dois milênios e meio, Sócrates  alinhava puras noções de Espiritismo a seus discípulos; e, assim, através  da História da Humanidade, registramos  inúmeros  outros vexilários de tais conceitos. Os  fatos, portanto,  já  existiam… Os  dois  mundos: material e espiritual sempre coexistiram em plena interação. A Codificação Espírita significou a ordenação, a disciplina dos fatos e sua transformação em corpo de doutrina,  concretizando a promessa de Jesus quanto  à chegada do outro Consolador entre nós.

Quem seriamente estuda o Espiritismo, nota  ─ logo de início ─ a sua característica e vocação de Consolador, vez  que  nos faculta o conhecimento do Mundo Espiritual que nos  cerca, ao  mesmo  tempo  em que mata  a  morte,  demostrando  a  Imortalidade  da  Alma e  suas ilimitadas possibilidades de evolução, através das reencarnações.

Mostra-nos,  também,  a  Doutrina  dos Espíritos,  a  origem, destino e a razão de  nossas  existências, isto  é, de onde viemos, o que estamos fazendo aqui e  para  onde vamos. Mas, não se trata de simples questões hipotéticas, teóricas e sim, de revelação científica insofismável, racional, incontestável…

Aprendemos, com Kardec, que a Revelação Espírita, por sua natureza,  tem duplo caráter: participa ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica.    Participa  da  primeira,  porque   foi providencial o seu aparecimento e não o resultado da  iniciativa, nem  de  um  desígnio  premeditado do  homem;  porque  os  pontos fundamentais da doutrina provêm do ensino que deram os  Espíritos encarregados  por Deus de esclarecer os homens acerca das  coisas que  eles  ignoravam (…) Participa da segunda, por  não  ser  esse ensino  privilégio de indivíduo algum, mas ministrado a todos  do mesmo modo (A gênese, cap.1,item 13), não dispensando o uso do raciocínio, do exame  e  do livre-arbítrio…   Assim, é divina a origem do Espiritismo, mas sua elaboração é fruto do trabalho do homem.

Lemos na Revue Spirite, de agosto de  1868, importantes  e esclarecedores apontamentos sobre a trajetória  do Espiritismo em nosso Orbe: (…)  parece-nos   útil  à   história   do Espiritismo, dividir a sua existência em dois períodos:

1º Período: da origem do Mundo até 1850;

2º Período: de 1850 até o futuro infinito.

Podemos, dessa forma, didaticamente, compreender sob o título geral de: Espiritismo retrospectivo os  pensamentos, as doutrinas, as  crenças  e todos os fatos espíritas anteriores à Codificação, isto é, até  o ano de 1850, data na qual começaram realmente as observações e os estudos sobre as espécies de fenômenos.

Não foi senão em 1857 que tais observações começaram a ser  coordenadas  em corpo de doutrina metódica e filosófica, encerrando o período do Espiritismo retrospectivo e iniciando  a segunda e definitiva fase que poderemos classificar como Espiritismo Moderno, inaugurada  com  o  advento  da   Codificação  Kardequiana, constituída pelos cinco livros básicos: O Livro  dos Espíritos, O   Livro  dos  Médiuns,  O  Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese.

Nos itens VI e VII da  conclusão de O Livro dos Espíritos, esclarece, ainda, o ínclito mestre lionês:  Falsíssima  ideia  formaria   do   Espiritismo quem   julgasse   que   a  sua  força  lhe  vem  da  prática  das manifestações  materiais  e  que, portanto,  obstando-se  a  tais manifestações,  se lhe terão minado as bases. Sua força está  na filosofia, no apelo que dirige à razão, ao bom senso. (…) Fala  uma linguagem clara, sem ambigüidades. Nada há nele de místico, nada de alegorias suscetíveis de falsas interpretações. Quer ser compreendido,  porque chegados são os tempos de fazer-se  que  os homens conheçam a Verdade.

Longe  de se opor à difusão da luz,  deseja-a para  todo  mundo.  Não reclama crença cega; quer  que  o  homem saiba porque crê. Apoiando-se na razão, será sempre mais  forte do  que os que se apoiam no nada.  (…) As ideias espíritas  são um  penhor de ordem e tranquilidade, porque pela sua  influência, os homens se tornam melhores uns para com os outros, menos ávidos das coisas materiais e mais  resignados aos  decretos  da Providência.

Os que compreendem e praticam o  Espiritismo se beneficiam, entre outras coisas, de três efeitos imediatos:

1º – desenvolvimento do sentimento religioso;

2º – resignação nas vicissitudes da vida;

3º – estímulo da indulgência  para  com  os defeitos alheios.

Assim  compreendendo, observa Santo Agostinho, nas letras finais de O Livro dos Espíritos (item IX), que o  Espiritismo é o laço  que  um  dia unirá as criaturas que até hoje se têm mutuamente estraçalhado  e anatematizado em nome de Deus, que foi sempre ─ por excelência  ─ pacífico e misericordioso, ofendendo-O com semelhante sacrilégio.

(…) Quereis saber sob a influência de  que Espíritos  estão  as  diversas  seitas que  entre  si  fizeram  partilha  do  mundo?  Julgai-o pelas suas obras e  pelos  seus princípios. Jamais os bons Espíritos foram os instigadores do mal; jamais aconselharam ou  legitimaram  o  assassínio  e  a violência;  jamais estimularam os ódios dos partidos, nem  a  sede de riquezas e das honras, nem a avidez dos bens da Terra. Os que são  bons, humanitários e benevolentes para com todos,  esses  os seus  prediletos e prediletos de Jesus, porque seguem  a  estrada que Este lhes indicou para chegarem até Ele.                


por Rogério Coelho
Artigo do Jornal Mundo Espírita - Março/2015