O aspecto filosófico da Doutrina Espírita por Rogério Coelho

Retrocedendo nos séculos vamos encontrar, entre os antigos gregos, a consciência mítica, cujos vexilários mais expressivos foram Homero e Hesíodo, com seus imortais poemas…

À era da consciência mítica sucedeu a era da consciência racional e, nessa passagem de fase, surgiram os primeiros sábios: Sophos, em grego.   Foi um desses sábios, surgidos nessa fase de transição, famoso até hoje por sua expressiva contribuição na área das matemáticas, chamado Pitágoras, (Século VI a.C.) quem, pela primeira vez, usou a palavra filosofia (Philos-Sophia), que significa: amor à sabedoria.

Contudo, embora tenha sido Pitágoras a dar-lhe expressão na área do conhecimento humano, é importante realçar que, até etimologicamente falando, a filosofia não apresenta fortes conotações do racional (logos) mas, em compensação, apresenta-se, indiscutivelmente, como desveladora amorosa da verdade.

Segundo os entendidos, ao contrário da Ciência, que tende cada vez mais para a especialização, a filosofia, no sentido inverso, quer superar a fragmentação do real a fim de resgatar o homem de maneira holística.   Por isso, a filosofia tem uma função de interdisciplinaridade, estabelecendo o elo de ligação entre as mais variegadas formas do saber e do agir.

A precípua função da filosofia é, pois, projetar – multidirecionalmente -  pelos quadrantes do saber, uma ampla rede de interrogações, que irão se transformar em ganchos, onde nos firmaremos para – finalmente – decifrarmos as incógnitas que nos afligem, isto é, desvelar a verdade consubstanciada em nossas próprias e independentes elucubrações.

É por causa da característica iluminadora da filosofia que a vemos sufocada nos Estados totalitários, já que impedir o ensino da filosofia é silenciar a crítica dos livres pensadores, cujas ações causam bulício na massa passiva e ignara dos cidadãos, gerando a desobediência civil e fazendo derruir os grossos e ancestrais muros dogmáticos que engessavam as expansões do conhecimento emancipador, esvaziando – consequentemente – o poder das classes dominadoras, com substanciais alterações no status quo vigente.

Portanto, o estudo da filosofia é essencial para a Vida de relação, vez que – gregárias por natureza -, as criaturas interagem entre si, e ninguém, sob pena de ser tachado de alienado, está dispensado de refletir e agir em conformidade com a sua própria consciência, dentro dos parâmetros e limites eleitos como diretrizes para seus atos e modus-vivendi.

No âmbito das mais variadas atividades humanas, quer profissionais, religiosas etc., sempre haverá o espaço e a necessidade da reflexão filosófica para expansão da consciência crítica, para o exercício da maiêutica socrática, tão sábia e amplamente manejada por Allan Kardec, na feitura da Codificação Espírita.

Assim, a Doutrina Espírita não poderia deixar de ter a sua vertente filosófica, para não lhe faltar a instrumentação básica com a qual abriria as picadas nas incognoscíveis veredas das transcendentais regiões do Espírito, e mostrar-se, empós, como a única Doutrina realmente capaz de responder conveniente e logicamente às milenares interrogações humanas, guiando as criaturas nos intrincados dédalos do saber.

O aspecto filosófico do Espiritismo enseja a consciência crítica, essa grande demolidora dos mal alinhavados e ancilosados dogmas medievais que até hoje tencionam e sufocam o pensamento religioso da Humanidade.

A novel Doutrina dos Espíritos, com o seu tripé de sustentação nos aspectos Científico, Filosófico e Religioso, possui, portanto, todos os componentes necessários para fazer levedar a massa do saber, permitindo ao homem alcandorar-se aos altiplanos da sua definitiva emancipação espiritual.

Com a Filosofia Espírita, o homem poderá reaprender a ver o mundo que o cerca, e estamos falando tanto do mundo visível quanto do Mundo Invisível, obtendo, assim, as respostas que até hoje pedia – debalde – aos mais diversificados ismos que existem espalhados por aí…

Ancorada na imarcescível segurança da Ciência e amuniciada com o acerado buril da Filosofia, a Doutrina Espírita desvela-nos ilimitados horizontes, impulsionando-nos da horizontalidade do áspero chão terrestre à transcendental verticalidade dos gloriosos Cimos da Espiritualidade, também e principalmente sob a chancela de sua mais importante vertente que é a vertente religiosa, nos religando ao Pai Celestial de Quem nos havíamos apartado por mérito e obra da onipresente ignorância humana.

Não existiu, na face da Terra, maior Filósofo e Psicólogo que Jesus, o Meigo Pegureiro, que veio apontar-nos o rumo certo das moradas felizes da Casa do Pai; Ele que é o nosso mais perfeito Modelo e Guia, conforme no-lO revelaram os Benfeitores Espirituais.  Portanto, sigamos a Sua Filosofia e a Sua Psicologia a fim de alcançarmos presto o lugar que Ele nos tem preparado. (João, 14, 2-4)

 


por Rogério Coelho
Artigo do Jornal Mundo Espírita - Abril/2015